Os desafios do novo presidente e o futuro do peronismo

O triunfo de Mauricio Macri provocou um terremoto político na Argentina. Pesquisas e mídia falharam na previsão do fenômeno, cujas razões devem ser buscadas na sociedade. O impacto foi enorme quando, nas eleições de 25 de outubro, o peronismo perdeu a Província de Buenos Aires e prefeituras da Grande Buenos Aires – governadas por ele desde 1983. Mas, com a derrota de Daniel Scioli, começam a surgir várias perguntas sem resposta. Quem é Mauricio Macri? Poderá governar uma Argentina dividida? Quais serão as alianças para ampliar sua base de sustentação? O que fará o peronismo, se revitalizará ou entrará em decadência como ocorreu com o radicalismo?

Carlos de Angelis, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2015 | 23h26

O kirchnerismo e o macrismo foram duas respostas que a política criou para enfrentar a crise de 2001. Naqueles dias em que os presidentes se sucediam, mais da metade da população mergulhou na pobreza, no desemprego e o subemprego chegou a 40%.

A resposta do kirchnerismo foi intervir na economia, financiando projetos sociais. Em muitos casos, foram realizações importantes, mas, em outros, significaram um desperdício de recursos sem nenhuma transparência. A partir de 2011, este esquema se tornou insustentável e o governo teve de recorrer a um complexo mecanismo de controle de capitais. O descontentamento da sociedade começou a ser notado na classe média.

Enquanto isso, Macri ia construindo seu projeto desde 1995, quando foi eleito presidente do Boca Juniors, clube mais popular do país. Em 2007, chegou à prefeitura de Buenos Aires e fez um governo orientado para a solução de problemas crônicos da capital. Em 2011, se reelegeu e começou a preparar sua candidatura à presidência.

Com o passar dos anos, o kirchnerismo se opôs ou se omitiu em leis fundamentais para uma sociedade moderna, como o casamento gay e a igualdade de gênero, entre outros. Desde então, foi desenvolvendo um perfil conservador do ponto de vista social.

Em 2015, Macri empregou seu principal talento empresarial: assumir riscos. Construiu alianças com velhas forças políticas e enviou sua vice na prefeitura, María Eugenia Vidal, para percorrer os complexos labirintos da Província de Buenos Aires. Construiu uma arquitetura territorial que há anos o peronismo abandonara.

O terremoto provocará um cataclismo no peronismo, que deverá se reconstruir sob pena de um longo inverno longe do poder. Cristina Kirchner tratará de sobreviver, jogando a culpa da derrota em Scioli. O triunfo de Macri, porém, se deve, em parte, às manobras astutas da presidente, que levou mais de um analista a indagar se ela realmente queria que seu candidato ganhasse.

Agora, Macri precisa demonstrar que pode governar, que pode construir um governo sustentável com o peronismo na oposição. Ele sabe que o kirchnerismo é um inimigo impiedoso, mas possui elementos para negociar com sucesso com governadores e Congresso, no qual estará em minoria, evitando cair na tentação de formar uma nova hegemonia com setores econômicos mais concentrados. Finalmente, é notório que as forças políticas que chegam ao poder têm a debilidade do comportamento hesitante e mutável da classe média. Por isso, Macri deverá ampliar sua base de sustentação até os setores mais pobres que não votaram nele, aproveitando para acertar onde o kirchnerismo errou: o desenvolvimento de uma gestão moderna e eficiente. / É SOCIÓLOGO, ANALISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE BUENOS AIRES

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