Os dez mandamentos da visita ao Oriente Médio

Assim como as tábuas da lei guiaram os hebreus, Obama terá de respeitar 10 leis em sua delicada travessia na política israelense de hoje

OREN , KESSLER, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2013 | 02h05

Artigo

A Casa Branca preocupou-se em reduzir as expectativas da primeira visita oficial do presidente Barack Obama a Israel, salientando que o líder não levará uma iniciativa de paz específica, mas seu objetivo é "ouvir". Para muitos israelenses, já não era sem tempo. Pois, embora o cidadãos de Israel sejam, em geral, pró-americanos, Obama poderá encontrar uma multidão mais exigente do que em sua visita anterior, há cinco anos, como senador, na campanha de 2008.

Muitos israelenses ficaram ressentidos pelo fato de ele não ter visitado o país no seu primeiro mandato, e por sua suposta indiferença em relação à deposição de Hosni Mubarak e à ascensão da Irmandade Muçulmana no Egito. As relações notoriamente conturbadas de Obama com o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu não ajudaram, embora, a posse de um novo governo de coalizão, na semana passada, permita prever um relacionamento mais amistoso.

Obama poderá sempre contar com uma parcela do público de Israel - os assinantes do jornal de centro-esquerda Haaretz e os eleitores de tendência trabalhista - para apoiá-lo quase com a mesma confiança de seus democratas no EUA. Mas, para conquistar o restante da população (dois terços dele, se as recentes eleições podem ser consideradas um parâmetro seguro), ele precisará de algumas diretrizes. Assim como os Dez Mandamentos guiaram os israelitas através da perigosa travessia até a Terra Prometida, novas regras poderão ajudar Obama a navegar num mar de israelenses hostis.

1. Não faças associações. "Fazer uma associação", no contexto político do Oriente Médio, é a ideia de que as várias doenças da região só serão sanadas solucionando o conflito árabe-israelense. Se essa briga for resolvida - segundo o pensamento convencional - os mundos árabe e muçulmano não mais tolerarão islâmicos radicais, autocratas e terroristas, e se aproximarão mais da democracia liberal, do desenvolvimento econômico e de relações mais simpáticas com o Ocidente. Mas a falta de paz entre israelenses e palestinos é uma ferida que infecciona toda a política externa americana e serve de pretexto para o terrorismo. Durante os preparativos dessa viagem, o presidente foi mais generoso admitindo que Israel vive numa "vizinhança hostil" com abundância de problemas locais. Ele terá de se ater à segunda opção se quiser sair de Jerusalém com mais amigos do que quando chegou.

2. Não congelarás. A insistência do primeiro mandato de Obama em se congelar por um ano as construções na Cisjordânia foi um erro de principiante que não deu nenhum resultado - apenas o alijamento de muitos israelenses. Pois, embora todos os homens tenham sido criados iguais, todos os assentamentos não obedecem à norma. O general Amos Yadlin - ex-adido militar em Washington, que atualmente dirige o Instituto dos Estudos sobre Segurança Nacional de Tel-Aviv - disse que uma grande maioria de israelenses assinaria um papel em favor de um congelamento em cerca de 80% da Cisjordânia, particularmente os que estão isolados a leste do muro de segurança. Mas deter a construção dos grandes assentamentos e nos bairros majoritariamente judeus de Jerusalém Oriental não faz sentido, e só cria rancor de ambos os lados.

3. Não ignorarás tua contraparte. A imagem de Obama em Israel não ajudou em nada quando, em 2011, ele foi apanhado queixando-se num microfone inadvertidamente ligado de que teria de trabalhar diariamente com Netanyahu. Então, no mês passado, o presidente disse nos bastidores que não só o premiê está levando seu país ao isolamento internacional, mas o próprio público israelense "não sabe qual é o seu principal interesse".

4. Honrarás os amigos mais do que teus inimigos. No Oriente Médio, a capacidade de identificar aliados e inimigos - e premiar e punir da mesma maneira - é um talento tradicionalmente admirado tanto por judeus quanto por árabes. "Hoje, tu humilhaste todos os teus seguidores", deplora o comandante do exército do Rei Davi quando o monarca chora a morte do filho rebelde, "mostrando amor por aqueles que te odeiam, e ódio por aqueles que te amam". Os israelenses sabem que a Irmandade Muçulmana do Egito e a teocracia que governa o Irã são antiamericanos ferrenhos. Eles lembram que no 11 de Setembro os palestinos comemoraram nas ruas. Procuram compreender por que motivo eles são alvo da ira de Obama, enquanto os outros protagonistas da região têm passe livre.

5. Chamarás as coisas pelo nome. Os israelenses respeitam a franqueza e esperam que Obama demonstre a mesma honestidade em referência aos interesses de Israel. O Hezbollah é um exemplo claro. O novo secretário da Defesa, Chuck Hagel, foi um dos 12 senadores que se recusaram a assinar uma carta endereçada à União Europeia pedindo para designar o Hezbollah como organização terrorista, apesar de ter derramado o sangue de mais de 250 americanos.

6. O casamento é eterno. Em 2011, a então secretária de Estado, Hillary Clinton, anunciou que seu governo transferiria o grosso de seus recursos estratégicos do Oriente Médio para a Ásia. Para o público americano cansado de perder sangue e dinheiro no Iraque e no Afeganistão, a decisão parecia fazer todo o sentido. Mas os EUA não podem se divorciar do Oriente Médio, por mais que tentem. Apesar do discurso sobre a independência energética americana, a região continua a principal fonte mundial de combustíveis fósseis para o futuro próximo.

7. Não te apresses. O conflito árabe-israelense provavelmente não será resolvido por ideias novas e ousadas, mas trabalhando incansavelmente as ideias antigas. Talvez nem sequer se resolva definitivamente enquanto vivermos.

8. Te aproximarás do povo. A Casa Branca indicou que um dos principais propósitos da visita é reatar as relações com Netanyahu, que acaba de ser reeleito. Mas as discrepâncias entre os dois líderes - a sensibilidade de Obama se formou na Universidade Columbia, a de Netanyahu nos comandos - indicam que eles jamais serão grandes amigos. Obama fará um "discurso de Jerusalém" para 600 estudantes universitários israelenses - uma oportunidade excelente para reverter a situação.

9. Terás de justificar-te. Autoridades israelenses alardearam a cooperação militar de Obama com Israel como a mais significativa da história. Se o presidente conseguir convencer que seus erros têm mais a ver com estilo do que com substância, pode sair ileso da Terra Santa.

10. Deterás o Irã ou te afastarás. Além de estabelecer uma conexão com o povo de Israel, o objetivo mais abrangente da viagem diz respeito ao programa nuclear do Irã. Se Obama não convencer os israelenses a confiar nele na questão do Irã - se Teerã construir a bomba, ou se Jerusalém resolver atacar - nenhuma tábua do Sinai o ajudará a restaurar seu legado para a Terra Prometida. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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