'Os dois lados não levaram em conta o poder das minorias'

Segundo o pacifista, agora essas minorias que têm o poder de decisão são responsáveis pela falta de avanço nas negociações

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2011 | 03h03

Arquiteto dos Acordos de Oslo e, posteriormente, líder de uma negociação pacifista em Genebra para resolver o conflito entre Israel e palestinos, o israelense Yossi Beilin culpa o atual premiê Binyamin Netanyahu pela falta de avanço no diálogo para a paz com a Autoridade Palestina. Abaixo, trechos da entrevista concedida ao Estado em Nova York.

O que deu errado nestes 18 anos depois da assinatura dos Acordos de Oslo para chegarmos ao impasse atual?

Os dois lados não levaram em consideração o poder das minorias. Embora as maiorias em Israel e nos territórios palestinos sejam a favor de uma solução pacífica, elas não têm o controle da situação na hora de tomar qualquer decisão. E estas minorias, que são determinantes no processo, transformaram-se em obstáculos durante as negociações de paz, usando a violência em alguns casos. E, até agora, somente estes grupos minoritários, obtiveram sucesso. A direita em Israel venceu as eleições. Nos territórios palestinos, tivemos a vitória do Hamas. Por este motivo, a chance de paz agora é menor do que nos anos 90. Não há hoje nenhuma possibilidade de acordo sobre as fronteiras. No lado israelense, temos um governo muito direitista que ideologicamente não está disposto a pagar o preço mínimo para a paz exigido pelo governo pragmático dos palestinos. No lado palestino, a atual administração não poderia garantir a Faixa de Gaza em um acordo e este seria aplicado apenas na Cisjordânia.

O senhor se sentiria seguro em assinar um acordo com os palestinos para, em cinco anos, haver o risco de um governo radical assumir o poder?

Se eu fosse o premiê de Israel, assinaria um acordo com Abu Mazen (como é conhecido o presidente palestino, Mahmoud Abbas) com base nas negociações de Genebra e o adotaria primeiro na Cisjordânia e esperaria para aplicá-lo depois na Faixa de Gaza. Por que? Porque sempre precisamos comparar com a alternativa que temos. No momento, temos um parceiro moderado no lado palestino. Se assinarmos a paz com ele, teremos a comunidade internacional a nosso favor caso seu sucessor seja mais radical. Mas, se não assinarmos agora, seremos cobrados.

O que aconteceu com a imagem de Israel? Por que o país sofre tantas críticas e parece estar perdendo a guerra das relações públicas, especialmente em nações emergentes, como o Brasil, Turquia e África do Sul?

Não é uma questão de relações públicas, mas de política. Temos um governo de direita que nunca conseguirá ter boas relações públicas com as políticas adotadas.

A ida dos palestinos às Nações Unidas será positiva?

Não sou muito entusiasta desta atitude, já que não haverá um Estado palestino. Ao mesmo tempo, Abu Mazen (Abbas) estava em uma situação muito difícil. Ele não podia ficar sem fazer nada e tampouco tem um parceiro em Israel para a paz.

O que aconteceu com a esquerda de Israel?

Ehud Barak (atual ministro da Defesa, ex-líder do Partido Trabalhista e ex-premiê de Israel) também deve ser responsabilizado pela atual situação de impasse. Para ele, não há parceiros para a paz do outro lado e os palestinos apenas querem a violência. E essa visão de Barak ganhou força em Israel entre antigos pacifistas. / G.C.

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