Os ecos do Império Britânico

Crise de 2008 será a marca do fim do imperialismo dos EUA, algo similar ao que 2ª Guerra fez à Grã-Bretanha

O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2012 | 03h08

A Primavera Árabe, a ameaça do Irã enquanto potência nuclear emergente, a violência sem fim na Síria e a relutância dos EUA em decidir se envolver lá indicam a debilidade, senão o fim, do papel dos EUA como polícia do mundo. O próprio presidente Obama disse em um discurso, no ano passado: "Os EUA não podem usar o seu poderio militar em qualquer país em que haja repressão".

A situação dos EUA neste momento lembra a da Grã-Bretanha em 1945. Extremamente endividada e empenhada, entre outras coisas, em construir o seu sistema nacional de saúde, o país não tinha mais condições de governar um império. Além disso, o país, que tão orgulhosamente segurava as rédeas do poder apenas uma geração antes, estava esgotado.

O papel imperialista dos EUA é até mais frágil, porque eles nunca tiveram a fé e a confiança em seu próprio destino imperial. Hoje, o declínio americano não é motivado pelo isolacionismo tradicional, mas por uma necessidade prática. Como a Grã-Bretanha depois da 2.ª Guerra, os EUA contemporâneos já não dispõem de recursos financeiros para manter um império - que no caso americano, foi sempre um objetivo perseguido sem grande entusiasmo.

Assim como a 2.ª Guerra foi identificada com o fim do Império Britânico, os futuros historiadores poderão identificar a crise financeira de 2008 com o fim do império americano. Entretanto, com o declínio do poderio americano, particularmente no Oriente Médio, o mundo se tornou consideravelmente mais instável e incerto.

Os EUA retiveram uma imagem muito menor do que o colosso que parecia o dono do mundo em 1989, quando um artigo intitulado O fim da história? podia ser levado a sério, ainda que paradoxalmente. Os EUA nunca procuraram administrar territórios estrangeiros direta e indefinidamente, embora a presença de bases americanas no Japão, Alemanha, Grã-Bretanha e, mais recentemente, na Arábia Saudita, lembrem um imperialismo brando.

Durante a Guerra Fria, os EUA se consideravam os líderes do "mundo livre", reivindicando uma liderança tão ousada quanto a de qualquer outro império da história. Sua dominação tinha base na força das alianças, na assistência direta e no exemplo social e econômico, não na ocupação. Somente nos últimos dez anos os EUA intervieram militarmente para decidir quem governaria no Iraque, no Afeganistão e na Líbia.

A hesitação em se envolver nos complexos detalhes da política internacional é uma característica do organismo político americano desde a independência. A famosa admoestação de George Washington que aconselhava a "evitar as controvérsias externas" é uma das citações mais falsas da história - que comprime em três palavras um conselho mais sutil a evitar os imbróglios da Europa. Entretanto, os líderes que vieram depois dele seguiram a versão aceita dos comentários de Washington. Posteriormente, Woodrow Wilson pregou a autodeterminação lá fora e a Guerra do Vietnã ensinou aos americanos que seu poderio era limitado.

A história do Império Britânico sugere que toda forma de império é equivocada. Em primeiro lugar, é um empreendimento demasiado dispendioso. A ascensão da China e dos países emergentes significa que, mesmo que os EUA se recuperem, as dimensões relativas de sua economia serão menores. Em segundo lugar, como os britânicos acabaram descobrindo, manter um império exige um número excessivo de cálculos e um conhecimento imenso para que qualquer potência no mundo de hoje queira tentar essa façanha. O Iraque e o Afeganistão deveriam ter ensinado essas lições aos EUA. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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