Os egípcios só querem seguir em frente

Uma repressão tão drástica era provavelmente desnecessária, pois nunca se votou "não" em um referendo no Egito

Manal Omar*, Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2014 | 02h06

Desde o primeiro dia do referendo constitucional egípcio, no qual se concentraram grandes esperanças, duas coisas que a maioria dos egípcios já conhecia foram confirmadas. A primeira, é que este terceiro referendo em três anos pouco tem a ver com o documento que está sendo votado. A segunda, é que o resultado seria praticamente inquestionável: a nova Constituição aprovada de forma esmagadora. A votação, terça e quarta-feira, foi considerada a oportunidade para pôr fim ao debate político que ameaça dilacerar o Egito. O país está profundamente polarizado desde o golpe de 3 de julho, quando militares depuseram o presidente Mohamed Morsi.

A Carta anterior foi suspensa e se estabeleceu um novo programa para a transição política, liderada por um governo nomeado pelo Exército. Esse governo, que baniu a Irmandade Muçulmana e reprimiu manifestações de rua, redige agora uma nova Constituição. O documento incorpora mais direitos e liberdades do que o anterior, mas também garante maior autonomia para os militares. Continua afirmando os princípios da lei islâmica, limita o estabelecimento de sindicatos a um por profissão e permite que civis sejam processados em tribunais militares.

Muitas pessoas com as quais conversei disseram que seu interesse fundamental não é promulgar uma Carta Magna específica, mas encontrar uma maneira de fazer o país seguir em frente e concentrar as atenções nas tão necessárias reformas sociais e econômicas que inspiraram a revolução de 2011, o que significa que elas querem apenas passar para a próxima fase. Todos também parecem reconhecer tacitamente o "elefante" que se encontrava nas sessões eleitorais: votar "não" nem mesmo é uma opção.

A campanha da imprensa oficial pelo referendo insiste numa mensagem que não é implícita, mas é literalmente soletrada em todo o país. Cartazes nada sutis com os dizeres "SIM ao referendo, NÃO às trevas" encontram eco na televisão e no rádio, que proclamam: "SIM ao referendo, NÃO ao terrorismo". O governo de transição declarou que a Irmandade é uma organização terrorista.

Os defensores da entidade islamista recusam-se a aceitar o programa apresentado depois de 3 de julho. Boicotaram a votação. Eles afirmam categoricamente que a volta de Morsi, o primeiro presidente do Egito democraticamente eleito, é o único processo legítimo para que o país possa seguir em frente.

Ao mesmo tempo, para muitos ativistas e partidos políticos envolvidos na revolução de 2011, a participação no referendo não foi realmente uma escolha. Os que tentaram defender o "não" enfrentaram violenta retaliação. Um exemplo foi a prisão de vários membros do Partido Egito Forte dias antes da votação por distribuírem cartazes que incentivavam os eleitores a votar contra a nova Constituição.

Na verdade, uma repressão tão drástica era provavelmente desnecessária. Do ponto de vista histórico, nunca se votou "não" em um referendo no Egito e nunca ficaram claras as implicações que essa escolha poderia ter.

O único "não" retumbante ouvido no Cairo na campanha pelo referendo foi quando perguntaram às pessoas se haviam lido a Constituição. De motoristas de táxi a militantes estudantis, o povo pareceu surpreso com a pergunta. Para muitos egípcios, talvez até a maioria, o documento em si é irrelevante. O mesmo ocorre com os que apoiam os militares: o referendo para eles é, em última análise, uma maneira de consolidar a legitimidade do golpe. Muitos definem o "sim" como um sinal do fim do "reinado da Irmandade" e um veredito popular sobre a destituição de Morsi.

Nos dias que antecederam o referendo, muito se falou sobre o comparecimento popular. A Constituição do governo Morsi teve 63,8% de aprovação, mas apenas 32,9% da população votou na ocasião. Para muitos, essa foi uma clara indicação da falta de apoio a Morsi e à liderança da Irmandade. Do mesmo modo, a porcentagem de comparecimento dos eleitores, desta vez, será considerada um indicador da relativa confiança na liderança do general Abdel-Fattah al-Sisi, que admite a possibilidade de candidatar-se à presidência.

Mesmo com os interrogativos sobre o comparecimento às urnas, a ênfase maior está na necessidade de deixar para trás este período de agitação. Na realidade, a maioria dos egípcios está plenamente consciente da troca que está sendo defendida. Até os mais ferrenhos defensores dos militares admitem que é preciso temer a ausência de dissensão, os limites impostos à liberdade de expressão, ao direito de manifestar-se e a uma imprensa independente.

Inúmeros egípcios com quem conversei tornaram-se indiferentes à situação política e inúmeros outros disseram que nunca mais querem ver um protesto fechando as ruas. O objetivo do cidadão médio não é mais um processo democrático, mas sim ver um governo firme e forte capaz de introduzir melhorias concretas na vida cotidiana.

Uma dona de casa de 56 anos talvez tenha definido melhor a situação: "Nós dissemos 'sim' à Constituição de Tantawi (líder militar no período Mubarak que comandou a transição); para a Constituição de Morsi, dissemos 'sim' à estabilidade; e agora dizemos 'sim' à estabilidade e à segurança. As pessoas estão cansadas. Nós queremos ir adiante", afirmou à Mada Masr, publicação egípcia que se define independente e progressista.

Evidentemente, a realidade é que essa mesma troca foi feita antes. O pressuposto de que o rápido endosso de uma nova Constituição permitirá que o Egito dê um salto para frente é o mesmo que os eleitores imaginaram em referendos anteriores. Em ambos os casos, a estabilidade tão desesperadamente ansiada não se materializou. Os militantes egípcios que rejeitam os militares e a Irmandade observam consternados, à margem da cena política, enquanto "a história se repete". É o mesmo drama, mas com atores ou pessoas diferentes em novos papéis.

E embora seja cedo para saber, muitos temem que o drama acabe como já acabou antes - com um governo liderado por militares se consolidando, mantendo o poder e repetindo os mesmos erros dos seus predecessores. Se isso acontecer, dizem os críticos, há o risco de os egípcios mais uma vez terem de percorrer o mesmo caminho trilhado antes. Então, mais uma vez, o drama recomeçará.

*Manal Omar é especialista em Oriente Médio e África do Instituto da Paz dos EUA.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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