Eve Edelheit/NYT
Eve Edelheit/NYT

Os eleitores são 'elementos essenciais' durante uma pandemia?

Pedir para que fiquem em casa, em uma época de expurgos e violentos debates sobre o direito ao voto, deve ser motivo de grande ansiedade em qualquer circunstância

Redação, The New York Times

18 de março de 2020 | 20h20

Agora, estas são as instruções, simples e preocupantes: fiquem em casa. Somente quem é “essencial” deverá comparecer ao trabalho. Não viajem, a não ser que seja estritamente necessário. E aqui, na terça-feira, 17, estavam as perguntas pertinentes, pelo menos igualmente preocupantes: os eleitores serão pessoas essenciais em uma pandemia? Uma eleição – aquele grande processo de reabastecimento do governo, onde as prateleiras de suprimentos podem parecer vazias – será absolutamente necessária nestas condições?

Será que permanecer em casa é, de fato, um dever cívico desta vez? E até que ponto será uma política boa, se isto for verdade? Não há respostas claras, e, esta semana, coerentes. O choque entre distanciamento social e tecido social parecia ameaçar os objetivos de ambos, produzindo uma primária ao mesmo tempo desarticulada e distópica.

Três estados – Flórida, Illinois e Arizona – realizaram normalmente as suas eleições apesar das diretrizes da saúde pública para que se evitassem grandes aglomerações, enquanto o vírus, pelo menos, favorecia uma aglomeração eleitoral menos densa que permitiu que muitos participantes se adequassem. Em muitos lugares, eles assinalaram as suas escolhas na quietude estranha de sessões eleitorais que cheiravam a desinfetante ou, o que é mais preocupante, não tinham cheiro de nada (os trabalhadores das seções eleitorais de Chicago queixaram-se da falta de itens de limpeza adequados.)

A confusão repentina dos locais de votação, para proteger os vulneráveis nos centros para idosos e em outros lugares, deram origem a notícias de eleitores  que tiveram de voltar no meio do caos inicial. Voluntários que desistiram no último minuto. Em algumas seções, viam-se longas filas não exatamente por causa do grande comparecimento, mas por causa do distanciamento imposto às pessoas a fim de impedir a formação de aglomerações no seu interior.

A simples matemática na terça-feira mostrará que o ex-vice-presidente Joe Biden venceu amplamente em cada estado,  aumentando uma liderança considerável no número de delegados em relação ao senador Bernie Sanders. Mas apesar de todas as apostas desta primária democrática – a pandemia não reforçou nada a não ser o fato de que a presidência é importante – foi difícil deter-se nos ganhos de cada condado em relação ao outro.

Em aparições separadas na terça, ambos os candidatos se concentraram muito mais no vírus do que no voto. “Eu sei que nós, o povo, estamos preparados para este desafio”, disse Biden, permitindo-se um aparte  para observar a “excelente noite” de sua campanha. 

Sanders, insistindo em propostas políticas progressistas para fazer frente à crise, não discutiu os resultados.

Antes da noite de terça-feira, alguns estados haviam determinado que não poderiam  absolutamente respeitar a democracia desta forma. Em Ohio, onde havia sido marcada uma primária para terça, o governador Mike DeWine, republicano, adiou a votação com uma série de ações legais e declarações às vésperas da votação.

“Trata-se de grandes aglomerações de pessoas”, disse DeWine - à distância - ao The View na terça. “E o que nós tentamos fazer é explicar aos habitantes de Ohio que não podemos permitir grandes aglomerações.”

Outros estados, como Georgia, Louisiana, Kentucky e Maryland, também adiaram ou procuraram adiar suas eleições. E em uma das viradas mais impressionantes em uma primária cheia delas, as campanhas presidenciais continuamente antenadas para conquistar apoio às próprias causas acabaram com uma solução mais sutil no final: vote em mim. Se se sentir confortável.

“Ir para as urnas no meio de uma epidemia de coronavírus é uma decisão pessoal”, tuitou Sanders na terça enquanto sua campanha dizia que estava abrindo mão dos esforços tradicionais para ir votar, “e nós respeitamos a escolha dos eleitores”.

A mensagem não cai bem em um país ao qual ensinaram, tanto Sanders quanto todos os outros, que votar é a cura contra o que torna o país doente.

Vote contra os salafrários. Vote na mudança. Vote como se a sua vida dependesse disto.

É um apelo tão familiar quanto bipartidário.

“Me amem ou me odeiem”, instruiu o presidente Donald Trump no verão, vinculando o seu sucesso à economia, “mas votem em mim”.

“Não vaie,” aconselhava Barack Obama  aos seus ouvintes. “Vote”.

No entanto, esta é a crueldade e a precariedade da situação atual, quando a segurança pública e o voto podem parecer duas coisas conflitantes. Dizer aos eleitores que fiquem em casa, em uma época de expurgos de eleitores e violentos debates sobre o direito ao voto, deve ser motivo de grande ansiedade em qualquer circunstância.

“É como olhar dois trens que estão colidindo,” disse Carol Anderson, professora de Etudos Afro-Americanos na Emory University, que escreveu amplamente sobre a supressão de eleitores. “Como iremos preservar a saúde do público e a saúde da democracia?”

Ela sugeriu que as duas não são mutuamente excludentes, acenando com opções  como permitir que eleitores ausentes votem e a ampliação do voto antecipado. Tom Peres, presidente do Comitê Nacional Democrata, parecia ter em mente estes remédios na terça, ao pedir aos Estados onde se realizarão as primárias restantes que adotem esta estratégia e votem pelo correio o mais frequentemente possível.

O Arizona, onde a maioria dos democratas havia votado antecipadamente esta semana, poderia ser um importante ponto de dados. Apesar do vírus, o estado não mencionou nenhuma questão importante na terça.

Entre os primeiros eleitores estava Marlene Brown, uma executiva aposentada da área de seguros que votou em Surprise, Arizona, no sábado. Ela disse que não estava preocupada com a própria segurança, mas com a de outros que poderiam sair de suas casas para votar.

Marlene nunca perdeu uma eleição, afirmou, e não era o momento de pôr em risco a disputa.

“Eu não iria começar agora”, opinou, “quando precisamos fazer realmente alguma coisa”.

 

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