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Os enigmas de Damasco

PARIS - Finalmente, Bashar Assad autorizou que os inspetores da ONU investiguem o uso de armas químicas em um bairro de Damasco. A Síria sempre disse não ter sido responsável e garante que, se foram usados gases tóxicos, não foi pelo Exército, mas pelos rebeldes.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2013 | 02h11

O fato de Damasco ter aceito o ingresso dos inspetores da ONU, embora tardiamente, foi uma boa notícia. Finalmente, o mundo saberá quem, no dia 21 de agosto, abriu as portas do inferno químico. Infelizmente, assim que os inspetores chegaram ao bairro de Ghouta ontem, seu veículo foi atacado por franco-atiradores. A missão da ONU foi suspensa no começo. Garantem que ela continuará.

Portanto, a situação na Síria evolui não de hora em hora, mas de minuto em minuto. Além disso, em lugar de discutir acontecimentos incertos, sombrios, continuamente desmentidos, será melhor indagar sobre os enigmas que toldam o panorama do novo desafio que o Ocidente terá de solucionar no Oriente Médio.

Em primeiro lugar, tem a questão da "linha vermelha" à qual Obama se refere, que, se ultrapassada, autorizaria a reação violenta do Ocidente. A linha vermelha é um critério simples: ela será violada no dia em que Damasco utilizar armas químicas.

Alguns se surpreendem. Assad matou pelo menos 100 mil sírios. Há dois anos, o mundo assiste a uma hecatombe, vê crianças sendo massacradas, sabe que o ditador lançou mísseis contra sua população. Tudo isto está muito além da linha vermelha. Um assassinato por meio de uma pistola é um crime menor, enquanto uma morte com armas químicas muda de natureza, tornando-se abominável. Matar 100 mil sírios de uma maneira convencional é horrível, mas, a rigor, é uma ideia aceitável. Por outro lado, se o gás mata mil pessoas, a linha vermelha é ultrapassada e desata-se o incêndio.

Esta distinção pode parecer infundada para um espírito normal. No entanto, juristas e políticos a consideram fundamental. Por que? Em primeiro lugar, em razão das normas internacionais. Em 1993, foi assinada uma convenção que proíbe armas químicas. Poucos anos haviam se passado do Massacre de Halabja, no Iraque, em 1988, por ordem de Saddam Hussein.

A segunda razão é a lembrança do gás mostarda, lançado contra os soldados franceses na 1.ª Guerra. Deus sabe até onde foi a inventividade dos homens em matéria de atrocidades, mas os milhares de mortos foram os personagens de um acontecimento que nunca sairá da memória e do inconsciente dos homens.

Finalmente, os estadistas que batizaram a "linha vermelha" pensam no futuro. Se o século 20 foi o século do horror em massa, o 21 não será muito mais jovial. A enormidade das populações, os meios de destruição em massa, a loucura que deteriora os espíritos, tudo isto ameaça tornar nosso século numa grande temporada de morte marcado pelo selo sangrento de Caim.

Portanto, a linha vermelha não se refere apenas a Assad, mas também a outros tiranos que se sentirão tentados a seguir o mesmo caminho. Imagino que seja esse o pensamento de Barack Obama, que odeia fazer a guerra, adiando-a incessantemente, que ainda está traumatizado pelo conflito dos EUA contra as armas de destruição em massa que o Iraque nunca teve. Se essas hipóteses forem corretas, a linha vermelha (por mais arbitrária que seja) será uma maneira de ampliar o drama atual da Síria até atingir as dimensões de todo o planeta.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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