Os equívocos da bancada republicana

David Brooks*, The New York Times

14 Outubro 2015 | 02h00

A bancada republicana no Congresso americano parece quase ingovernável hoje em dia. Como chegaram a essa situação?

A capacidade do Partido Republicano de governar a si mesmo com eficácia foi enfraquecida lentamente, no decorrer de uma longa cadeia de excessos retóricos, corrupções mentais e traições filosóficas. Basicamente, o partido abandonou o conservadorismo tradicional em favor do radicalismo de direita. Republicanos começaram a se enxergar como insurgentes e revolucionários - e toda revolução tende à anarquia e acaba por devorar seus participantes.

De acordo com as definições tradicionais, o conservadorismo é representante da humildade intelectual, uma crença nas mudanças constantes e incrementais, uma preferência pela reforma em vez da revolução, o respeito à hierarquia, precedência, ao equilíbrio e à ordem - e um tom de voz que é prudente, comedido e responsável. Os conservadores desse tipo podem ser monótonos, mas sabem como nutrir e administrar instituições. Eles também enxergam o país como um todo orgânico. Os cidadãos podem compor diferentes classes e facções políticas, mas ainda são unidos por redes de afeto que mobilizam a lealdade e o amor.

Tudo isso foi revertido em porções perigosas do Partido Republicano. Nos 30 anos mais recentes, o tom da retórica republicana se tornou cada vez mais bombástico, hiperbólico e desequilibrado. Figuras públicas são prisioneiras de seus próprios estilos de prosa, e os republicanos se tornaram viciados numa mentalidade de crise. A civilização está sempre à beira do colapso. Cada revés político se torna a ruína. Comparações com a Alemanha nazista se tornaram corriqueiras.

A política é o processo de tomar decisões em meio a opiniões diversas. Ela envolve diálogo, deliberação, autodisciplina, capacidade de escutar outros pontos de vista e equilibrar ideias e interesses válidos e concorrentes.

Essa nova facção republicana considera o difícil processo da política algo imundo e impuro. Fazer concessões é corromper-se. Fatos inconvenientes são ignorados. A identidade política foi transformada numa espécie de identidade étnica - e qualquer concessão, tratada como traição ao sangue.

Esse ethos antipolítico produziu líderes eleitos de incompetência surpreendente. Administrar um governo é um ofício, como a carpintaria. Mas os novos representantes republicanos não acreditavam no governo e, por isso, não respeitaram suas tradições, disciplinas e artes. Não aceitam as estruturas hierárquicas de autoridade inerentes à atividade política.

Será que já vimos bobagens proferidas nessa escala, pessoas ao mesmo tempo cínicas e ingênuas, tão deliberadamente ignorantes no uso das alavancas do poder para produzir algum bem tangível, ainda que gradual? Esses insurgentes não são capazes nem mesmo de reconhecer a legitimidade da democracia.

Os que não aceitam a democracia não sabem dialogar. Não respeitam tradições, instituições ou precedentes. São mestres na destruição, mas são incompetentes na construção.

Esses insurgentes são incompetentes ao governar e se recusam a ser governados. Mas não são um fruto espontâneo. Foram necessárias mil pequenas traições do conservadorismo para chegarmos ao grau de disfunção que se vê ao redor nos EUA. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*David Brooks é colunista do The New York times

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