Os erros de Jaruzelski

Contradições marcam vida do general que liderou a Polônia da derrota do nazismo na Segunda Guerra ao fim da União Soviética

Gilles Lapouge,

30 Maio 2014 | 18h16

O general Wojciech Jaruzelski, ex-presidente da Polônia,  faleceu domingo, 25,  no hospital militar de Varsóvia,  aos 90 anos. Jaruzelski integrava o grupo de dirigentes da Europa Oriental atingidos ou banidos durante a longa agonia da União Soviética. Amaioria deles não deixou nenhum traço na memória do mundo. MasJaruzelski não foi totalmente esquecido.

Esta notoriedade tinha a ver, em primeiro lugar, como seu aspecto: sinistro, rígido, glacial. E os óculos de lentes escuras. Essesóculos têm uma história. Durante a 2.ª Guerra, ele foi deportado com sua família pelos soviéticos. Teve de cortar árvoressob a neve intensa e uma luz ofuscante. Com os olhos muito afetados ele foi obrigado a usar óculos com lentes escuras, quase opacas.

O segundo momento da sua trajetória também faz parte das lembranças do general. A data: 13 de dezembro de 1981. Neste dia Jaruzelski, então chefe do Conselho Militar de Salvação Nacional, decretou "estado de guerra" para fazer frente ao sindicato Solidariedade que, sob a condução de Lech Walesa,  fazia estremecer a Polônia comunista. Neste dia, colocando fim às liberdades públicas, enchendo as prisões e amordaçando a opinião pública, Jaruzelski "entrou para a história". O problema é que ele compreendeu mais tarde que havia entrado para a história, mas pela porta errada.

De fato, depois do fim do comunismo, o velho general aposentado jamaisdeixou de querer sair "da história". Explicou mil vezes que ao decretar o estado de guerra conseguiu evitar o pior: o domínio da Polônia pela União Soviética que havia mobilizado 100.000 soldados nas fronteiras. 

Os dirigentes dos países comunistas no geral eram camponeses, funileiros ou pequenos intelectuais rancorosos. Não era o caso de Jaruzelski. A origem da sua família se perde na noite dos tempos. Em 1205, o príncipe Conrad de Mazovie doou a seus ancestrais as terras  de Jaruzele,  recompensando-os pelo papel na luta contra as tribos pagãs da Polônia.

Durante séculos, a família Jaruzelski dirigiu a Polônia, o que levou um dos seus avós a ser deportado para a Sibéria pelo Czar, em 1863. Em  1941, a família foi novamente deportada. Stalin assumiu o lugar do czar  e enviou todos os Jaruzelski, o pai, a mãe, a irmã, e também o futuro general, para as montanhas de Altai. Foi lá que ele arruinou completamente seus olhos. 

É caso assim de perguntar como este filho de uma família aguerridamente antirrussa, digna representante da Igreja Católica e da monarquia polonesa, vai rapidamente, em 1942, aliar-se aos soviéticos. Esse vínculo foi ao mesmo tempo duradouro e sem arrependimento. 

Em 1945, ele participa da luta contra a resistência polonesa contra os comunistas. Colabora com a contraespionagem soviética. E inicia uma carreira brilhante. Frequenta a primeira universidade "marxista-leninista", onde se forma, e aos 33 anos torna-se general.

E vale a pena nos determos nesses anos. Com efeito, se a sua decisão de decretar Estado de guerra em 1981 para fazer frente a Lech Walesa ainda é controvertida (porque os soviéticos realmente ameaçavam), as medidas que adotou nos anos 60 e 70 foram totalmente condenáveis.

Em 1967, nomeado para chefiar o ministério da Defesa, ele rebaixou 13 mil oficiais poloneses pela única razão de serem judeus ou porque suas mulheres eram judias. Em 1968, participou com o Pacto de Varsóvia da vergonhosa invasão da Checoslováquia. Em 1970, por ocasião das  grandes revoltas que derrubaram o primeiro ministro Gomulka, o general deu ordens para  suas tropas atirarem contra a multidão.

Depois de 1981, começou a feroz batalha contra o sindicato Solidariedade e Walesa. O vencedor foi o sindicato. No quadrante da história, a União Soviética iniciou sua lenta descida para o nada.

Jaruzelski jamais admitiu seu erro. Numa entrevista em 2001, afirmou que o comunismo fracassou e ele se congratulava com isso, porque era um social-democrata convicto. Em 2005, quando o papa João Paulo II morreu, ele lhe rendeu homenagem e afirmou que o papa compreendera porque ele, Jaruzelski, havia proclamado o estado de guerra em 1981.

E eis a última retratação desse ex-dirigente polonês, um aristocrata que se tornou comunista para depois renegar o comunismo. No momento da sua morte, Jaruzelski, que se declarou agnóstico durante toda a vida,  recebeu, a seu pedido, os últimos sacramentos católicos. É o que afirmou a agência de notícias católica KAI. Se realmente isso ocorreu, seria caso de pensar que sua alma, de repente cristalina, compreendeu tardiamente a palavra de Deus? Salvo se no último momento ele tentou mais uma vez mostrar ao mundo inteiro que era um social-democrata, de tendência cristã?

A longa agonia do general foi entremeada de uma estranha comédia. Sua mulher, Jaruzelska, com a qual era casado há 53 anos, pediu o divórcio. "É nossa primeira crise de casal", explicou ela. No hospital militar onde o general se tratava de um câncer linfático em fase terminal, ele tinha uma enfermeira. 

A pretexto de levar lanchinhos para o general, ela se dedicava a outros exercícios. E a senhora Jaruzelski teve um dia a infelicidade de surpreender os dois nesses exercícios, em plena ação. Então pediu a separação. Interrogado a respeito, o general moribundo alegou que sua mulher havia "perdido a razão". Consultada, a senhora Jaruzelski disse que "não". / Tradução de Terezinha Martino

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