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Os erros de Theresa May no Brexit

Como o tempo corre contra o Reino Unido, ela deveria ter esperado ao menos o resultado da eleição deste ano na França e na Alemanha

Helio Gurovitz, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2017 | 05h00

A premiê britânica, Theresa May, começou mal as negociações do Brexit. Cometeu pelo menos três erros de estratégia. Primeiro: enviou cedo demais a carta que deu início à contagem regressiva de dois anos para o acordo de saída da União Europeia (UE). Como o tempo corre contra o Reino Unido, ela deveria ter esperado ao menos o resultado da eleição deste ano na França e na Alemanha, para saber com quem lidará na negociação. Até lá, a UE ficará parada olhando o cronômetro. 

Segundo erro: para agradar alas irredutíveis na questão da imigração, manifestou logo de cara sua intenção pelo Brexit versão “hard”. Isso significa que o Reino Unido já abriu mão de fazer parte do mercado comum e da união aduaneira, para poder controlar o fluxo nas fronteiras. Teria sido mais sensato fazer essa exigência na mesa de negociação, em troca de uma concessão talvez menos draconiana. Agora, May terá menos de dois anos para negociar, do zero, um acordo de livre-comércio. O prazo já é inviável em si - e a UE nem quer falar no assunto antes de resolver a situação dos expatriados, as dívidas do Reino Unido com o bloco e as regras para a fronteira irlandesa. 

Terceiro erro: na carta, May fez uma ameaça velada ao citar o risco aos sistemas comuns de segurança. Nem mencionou a questão mais essencial para a economia britânica: o futuro do mercado financeiro. Deveria ter chamado a atenção para um de seus maiores trunfos, a dependência europeia da City londrina. Com 17% do PIB da UE, Londres concentra 21% dos ativos bancários, 64% dos fundos de equity, 72% dos derivativos e 85% dos fundos de hedge.

A saída para salvar a City

Em caso de Brexit “hard”, a perda de receitas da City em serviços exportados para a UE é avaliada em até 

£ 20 bilhões. O motivo é o fim do “passaporte” que permite a qualquer banco operar de Londres para todo o bloco. Uma alternativa chamada “equivalência de país terceiro” permitiria à City manter, em tese, seu status. O custo: respeitar as normas burocráticas e jurídicas de Bruxelas, que os partidários do Brexit abominam. O risco: se quiser, a UE pode oferecer essa alternativa a qualquer centro financeiro - até ao maior, Nova York.

Trump não é o fim do Acordo de Paris

O decreto de Donald Trump em prol da indústria do carvão ameaça a meta do Acordo de Paris: emitir, em 2025, até 28% menos gases que em 2005 - a redução cairia pela metade, a 14%, segundo o Rhodium Group. Mas esse número pode ser ilusório. Até 2016, só as usinas elétricas americanas já haviam chegado a 26%, graças a tecnologias limpas como energia solar e eólica. Com queda vertiginosa no preço, a energia limpa é um mercado estimado em US$ 8 trilhões nos próximos 25 anos. Trump deixará a China dominá-lo para defender o carvão?

LEALDADE

“É possível sentir uma lealdade profunda a uma comunidade particular e à humanidade. Não há um estoque fixo de lealdade a dividir entre sua nação e o resto do mundo”

Kwame Anthony Appiah, FILÓSOFO 

Que faz Omarosa na Casa Branca?

Vilã insuportável - ou irrestível? - de O Aprendiz, Omarosa Manigault foi levada por seu padrinho para o cargo de diretora de comunicações do Escritório de Contato Público da Casa Branca (ela já trabalhou lá no governo Clinton). Ninguém sabe muito bem o que Omarosa faz. Líderes negros, habituados à Era Obama, já demonstraram insatisfação com os resultados obtidos pela única mulher negra com acesso a Trump.

Por que Bill Gates quer imposto sobre robôs

A proposta de criar um imposto sobre robôs obteve o apoio do Nobel de economia Robert Shiller. Seria uma forma de compensar o desemprego gerado pelas máquinas. “Pode ser politicamente mais aceitável taxar os robôs que apenas cidadãos de alto rendimento”, diz Shiller. Não é à toa que Bill Gates defende a ideia.

O olhar de Teju Cole em novos ensaios

O fotógrafo e romancista Teju Cole acaba de lançar um novo livro de ensaios. Faz num deles, nas palavras do crítico Norman Rush, um dicionário das “platitudes e clichês que corrompem o discurso literário e político”. Verbete “Escândalo”: “Se político, expresse surpresa que todos estejam surpresos. Se sexual, diga que é uma distração, mas procure saber os detalhes’.

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