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Os esquecidos dos planos de socorro do governo

Aqui falo de Genebra, mas poderia estar falando de muitas outras cidades, muitos outros países além da Suíça

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2020 | 19h16

Assim como outros países europeus, daqui a alguns dias a França sairá do confinamento (em 11 de maio, salvo novas oscilações). Em que estado? Lamentável. Os discursos sinuosos de Macron e de seu primeiro-ministro Edouard Philippe (que nem sempre concordam) deixam pelo caminho muitos “confinados desconfiados”.

Essa provação exauriu italianos, franceses e muitos outros. E também teve alguns efeitos inesperados: o pano caiu e deixou à vista os contrarregras, os “ausentes”, as mãos que estão sempre ocupadas nos bastidores. A bela e distinta Genebra, na Suíça, às paradisíacas margens do lago Genebra, lar de bilionários e das principais organizações internacionais, é uma das dez cidades mais ricas do mundo. Pobres, mendigos e sem-teto não são sua especialidade. A cidade não é simplesmente bonita: parece polida da manhã à noite, resplandecente. Se um floco de poeira se arrasta pelas ruas (pela Rue des Philosophes, por exemplo, cujo nome sempre me fez sonhar), já parece um tumulto.

No entanto, graças ao confinamento, descobrimos que sem saber, um pouco como os flocos de poeira se escondem debaixo da cama, a cidade abrigava muitos e muitos invisíveis: os clandestinos, os que não têm documentos, os que não têm nada. Como Genebra não está acostumada a esses invisíveis, não há nenhum plano para essas pessoas que geralmente nem moram na cidade, mas em algum país vizinho. Eles são tímidos, assustados, pobres. Os genebrinos não suspeitavam de sua existência, mesmo que muitos deles trabalhassem como empregadas domésticas ou trabalhadores braçais sem documentação. Fechada pelo coronavírus e sem acesso aos recursos, a cidade finalmente olhou para eles. Sopas populares foram distribuídas. Duas mil pessoas emergiram de seus quartinhos. Especialistas dizem que, na verdade, são 10 mil, quem sabe até 20 mil. A palavra “pobreza” só apareceu nos arquivos do Conselho Federal em 2010.

Presos em quarentena e sem status legal, eles trabalham por salários arbitrários, consertando uma porta, desentupindo uma pia, subindo andaimes, mas também servindo nas cozinhas e nas lavanderias dos elegantes edifícios da cidade – até mesmo, quem sabe? - na Rue des Philosophes. A maioria dessas “pessoas invisíveis” são mulheres. Elas vêm de alguns países da América Latina e, especialmente, das Filipinas. “Este é um caso de tomada de consciência para toda a Suíça”, disse uma das pessoas que cuida dessas mulheres abandonadas. E outro explica as dificuldades de ajudá-las: “O estado não quer passar a impressão de que ajuda diretamente os sem-documento”.

Aqui falo de Genebra. Mas poderia estar falando de muitas outras cidades, muitos outros países além da Suíça. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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