Os Estados Unidos devem conter a China?

Embora o renascimento da Ásia e a evolução econômica chinesa sejam bem-vindos, há temores de que Pequim se torne uma ameaça para Washington

Joseph Nye, do Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2011 | 00h00

Neste mês lembramos o 40.º aniversário da viagem secreta realizada por Henry Kissinger a Pequim, iniciando o processo de retomada das relações diplomáticas entre Estados Unidos e China, rompidas 20 anos antes. Aquela viagem, e a visita subsequente do presidente Richard Nixon, redefiniram de modo importante a Guerra Fria.

Estados Unidos e China deixaram de lado sua profunda hostilidade para, num esforço conjunto e bem sucedido, refrear uma União Soviética expansionista. Hoje, a União Soviética desapareceu e o poder chinês está crescendo.

Alguns americanos afirmam que a ascensão da China não pode ser pacífica e os Estados Unidos devem, agora, adotar uma política que contenha a República Popular. Na verdade, muitas autoridades chinesas acham que esta é a estratégia americana vigente. Eles estão errados.

Afinal, o processo de contenção da União Soviética durante a Guerra Fria significou basicamente nenhuma troca comercial e pouco contato social. Hoje, pelo contrário, os Estados Unidos não só têm uma relação comercial muito intensa com a China, mas existe um vigoroso relacionamento do ponto de vista social, incluindo 125 mil estudantes chineses que frequentam universidades americanas.

Com o fim da Guerra Fria, a contenção da União Soviética que teve início com a visita de Kissinger não serve mais de base para as relações sino-americanas. Além do que, as relações com a China esfriaram após os incidentes da Praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial), em 1989, e o governo de Bill Clinton precisou conceber uma nova estratégia.

Quando, em 1994, trabalhei na supervisão da Revisão da Estratégia do Pentágono para o Leste Asiático, rejeitamos a adoção de medidas para refrear a China, por duas razões. Se tratássemos a China como inimiga, com certeza teríamos um inimigo no futuro. Se tratássemos o país como amigo, não teríamos garantia dessa amizade, mas pelo menos deixaríamos aberta a possibilidade de resultados mais benéficos.

Além disso, seria difícil convencer outros países a aderir a uma coalizão para conter a China, exceto se os chineses recorressem a táticas agressivas, como foi o caso dos soviéticos após a 2.ª Guerra. Somente a China, por meio de seu comportamento, é que poderia persuadir os outros a uma política de contenção contra ela.

Assim, poderíamos chamar a estratégia concebida pelo governo Clinton de "integrar, mas se garantir" - mais ou menos como a abordagem do "confie, mas verifique" de Ronald Reagan em relação a acordos estratégicos firmados com os soviéticos.

De um lado, os Estados Unidos apoiaram a adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC) e aceitaram a entrada de visitantes e produtos chineses. Por outro lado, a Declaração Clinton-Hashimoto, de abril de 1996, afirmava que o tratado de segurança entre Estados Unidos e Japão, ao contrário de ser um vestígio da Guerra Fria, fornecia as bases para um Leste Asiático estável e próspero.

Bill Clinton também aperfeiçoou as relações com a Índia, estratégia que teve o apoio de ambos os partidos nos Estados Unidos.

O governo Bush adotou a mesma política de aprimorar as relações bilaterais, aprofundando e oficializando o diálogo econômico com a China. Na época, o subsecretário de Estado Robert Zoellick deixou claro que os Estados Unidos aceitavam a ascensão da China como uma "parte interessada responsável". Esta política continua orientando o governo Obama, que ampliou as consultas econômicas anuais com a China, para incluir assuntos ligados à segurança.

Renascimento. Como disse em meu novo livro, The Future of Power (O futuro do Poder, em tradução livre), uma das grandes mudanças observadas no século 21 é o renascimento da Ásia.

Em 1800, a Ásia representava metade da população do mundo e metade da economia mundial. Em 1900, a revolução industrial na Europa e América do Norte reduziu a quota de produção global da Ásia para 20%. Em meados deste século, o continente asiático de novo representará metade da população e do Produto Interno Bruto (PIB) do mundo.

É uma evolução natural e bem-vinda, à medida que permite que centenas de milhões de pessoas escapem da pobreza. Mas, ao mesmo tempo, cria temores de que a China se torne uma ameaça para os Estados Unidos.

Esses temores parecem-me exagerados, especialmente quando nos damos conta de que a Ásia não é uma entidade. Ela tem seu próprio equilíbrio de poder. Japão, Índia, Vietnã e outros países não querem ser dominados pela China e, por isso, acolhem bem a presença dos Estados Unidos na região.

A menos que a China desenvolva seu "poder brando", o aumento do seu poder econômico e militar deve assustar seus vizinhos, que formarão coalizões em busca de um equilíbrio. É como se México e Canadá fizessem uma aliança com a China para equilibrar o poder dos Estados Unidos na América do Norte.

Nova política. Após a crise financeira de 2008-2009, como a China se recuperou rapidamente e sua economia voltou a crescer 10% ao ano, algumas autoridades e analistas chineses passaram a defender uma política externa mais agressiva, que refletisse a nova força da China. Muitos acreditavam, erroneamente, que os Estados Unidos estavam em declínio e a crise havia oferecido novas oportunidades estratégicas para a China.

Assim, o país começou a insistir com mais força nas suas reivindicações territoriais sobre o Mar do Sul da China, e também a intensificar uma antiga disputa de fronteira com a Índia.

O resultado é que, nos últimos dois anos, as relações dos chineses com Japão, Índia, Coreia do Sul, Vietnã e outros pioraram - confirmando a premissa estratégica dos Estados Unidos de que "somente a China pode conter a China".

Mas seria um erro nos concentrarmos apenas no aspecto da segurança da estratégia americana. Estados Unidos e China (como também outros países) têm muito a ganhar com uma colaboração em assuntos transnacionais. Sem essa colaboração não conseguiremos planejar e aplicar soluções em assuntos como estabilidade econômica global, mudança climática, terrorismo virtual, ou epidemias.

Se o poder é a capacidade para alcançar os resultados desejados, é importante lembrar que, às vezes, nosso poder é ainda mais forte quando agimos com outros, e não sobre os outros. Esta dimensão importante da estratégia do "poder inteligente" para o século 21 não é captada pelo conceito da contenção.

Quando Kissinger aterrissou em Pequim há quatro décadas, ele deu início não só a uma mudança no processo da Guerra Fria, mas também a uma nova era de relacionamento sino-americano. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-SECRETÁRIO ADJUNTO DA DEFESA DURANTE O GOVERNO CLINTON, PROFESSOR NA UNIVERSIDADE HARVARD, E AUTOR DO LIVRO "THE FUTURE OF POWER"

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