Os estrategistas não querem a guerra

Os líderes civis dos EUA deveriam prestar atenção nos sinais de indignação dos que entendem de combates

É GENERAL DA RESERVA, EX-COMANDANTE DO COLÉGIO DE , GUERRA DO EXÉRCITO DOS EUA , ROBERT H. , SCALES , THE WASHINGTON POST, É GENERAL DA RESERVA, EX-COMANDANTE DO COLÉGIO DE , GUERRA DO EXÉRCITO DOS EUA , ROBERT H. , SCALES , THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2013 | 02h11

As gravações dizem tudo. Basta olhar as imagens do soldado da mais alta patente do país, o general Martin Dempsey, e sua linguagem corporal durante as audiências da Comissão de Relações Exteriores do Senado sobre a Síria, na terça-feira. É evidentemente óbvio que Dempsey, comandante do Estado-Maior Conjunto, não quer a guerra.

Enquanto a voz vibrante e o movimento dos braços do secretário de Estado, John Kerry, exprimiam sua indignação contra as atrocidades de Bashar Assad, Dempsey permaneceu em grande parte num respeitoso silêncio.

As palavras que Dempsey não pronunciou refletem a opinião da maioria dos oficiais de alta patente do Exército. De modo algum pretendo falar em nome de todos os homens e mulheres em uniforme. Mas posso justificadamente compartilhar dos sentimentos dos que estão no Pentágono elaborando planos e desenvolvendo estratégias para combater em nossas guerras. Depois de conversar pessoalmente com dezenas de soldados da ativa e da reserva nos últimos dias, sinto-me à vontade para achar que esse meu depoimento representa a opinião majoritária dos profissionais militares que foram as testemunhas mais próximas da série de eventos que deve conduzir os EUA à próxima guerra.

Eles se sentem embaraçados por serem associados ao amadorismo das tentativas do governo Obama de elaborar um plano que tenha algum sentido em termos estratégicos. Nenhum dos integrantes da equipe da Casa Branca tem experiência da guerra ou a entendem. Até o momento, pelo menos, o caminho escolhido infringe todos os princípios da guerra, incluindo o fator-surpresa, a possibilidade de alcançar massa crítica e ter um objetivo claramente definido e factível.

Causa repúdio a eles a hipocrisia da mídia, que alerta contra o retorno do hitlerismo, enquanto em particular admite que o motivo para pôr em risco vidas americanas é nossa "responsabilidade para com a proteção" de inocentes. Uma eventual ação americana na Síria não tem a ver com ameaças à segurança americana. Os líderes civis dos militares americanos estão indignados porque, o que deve vir a ocorrer é um ato de guerra - e a disposição a arriscar vidas americanas para compensar um lapso de verborragia a respeito de "linhas vermelhas".

Esses fatos seriam de punição e pela restauração da reputação de um presidente. Nossos profissionais da ativa destacam que matar mais sírios não dissuadirá os iranianos de nos enfrentar. Os iranianos já receberam a mensagem.

O nosso povo lamenta nossa iniciativa solitária. Nossos veteranos se orgulham do compromisso assumido no passado de combater ao lado dos aliados e em coalizões que compartilharam dos nossos objetivos estratégicos. Entretanto, essa guerra será exclusivamente nossa.

Eles estão cansados de aspirantes a soldados que continuam fascinados pela guerra tecnológica sem sangue. "Olhe", um deles me disse, "se o senhor quiser acabar com isso de maneira decisiva, mande as tropas para lá e deixe que elas derrotem o Exército sírio. Se a nação não acha que a Síria vale um compromisso sério, então deixe-as sozinhas". Mas os nossos soldados também advertem que a Síria não é a Líbia e nem a Sérvia.

Talvez os Estados Unidos tenham se acostumado demais a combater exércitos de terceira categoria. Como os israelenses aprenderam em 1973, os sírios são assassinos duros e mesquinhos, sem nada a perder.

Nossos militares compreendem e levam a sério seu juramento de defender a autoridade constitucional dos seus líderes civis. Eles compreendem que os Estados Unidos são a única democracia liberal que jamais foi governada por seus militares. Mas os soldados de hoje conhecem a guerra e não toleram os estrategistas civis que querem que os militares combatam uma guerra que nem eles nem seus parentes experimentarão diretamente.

O controle civil dos serviços armados não significa que os civis não deveriam dar ouvidos aos que testemunharam a guerra.

Nosso presidente soldado mais estimado, Dwight Eisenhower, teve a seriedade e a coragem de dizer não à guerra oito vezes durante sua presidência. Ele acabou com a Guerra da Coreia e recusou-se a ajudar os franceses na Indochina; disse não à Grã-Bretanha e à França, nações amigas na época da guerra, quando pediram a participação americana na tomada da Companhia do Canal de Suez.

E resistiu aos democratas liberais que queriam ajudar a nação recentemente constituída do Vietnã do Sul. Todos sabemos o que aconteceu depois que o sucessor ignorou o conselho de Eisenhower. Minha geração teve de ir à guerra.

Nos últimos dias, as opiniões dos oficiais que me fizeram suas confidências até certo ponto mudaram. A resignação parece ter se introduzido em sua indignação.

Um oficial me disse: "Para o inferno com eles. Se esse cara quiser ir à guerra, que vá. De qualquer maneira, parece que ninguém acabará se machucando".

Logo os militares estarão prestando respeitosamente continência e despejando centenas de mísseis de cruzeiro num esforço que, inevitavelmente, matará alguns dos que pretendem proteger.

E o farão com todo o profissionalismo e a perícia que esperamos dos soldados mais competentes do mundo. Gostaria que John Kerry parasse um momento para olhar as imagens das audiências desta semana antes de irmos novamente para a guerra. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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