Os estudantes estrangeiros e a imigração britânica

Muitas vezes mandados embora logo após terminarem seus cursos, eles podem ser o tipo de imigrante que a Grã-Bretanha mais necessita no momento

Timothy Garton Ash*, Especial para O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2014 | 02h02

Estúpida. Incoerente. Míope. Desastrada. Inoportuna. Contraproducente. Um dicionário de sinônimos não bastaria para descrever a insanidade da política do atual governo britânico em relação aos estudantes estrangeiros. Como trabalho numa universidade britânica, posso constatar seus efeitos desastrosos. Uma burocracia kafkiana, inoportuna. Todo mundo tratado como se fosse um indivíduo suspeito.

Um funcionário público de Cingapura extremamente capacitado foi recusado sob a alegação de que seu conhecimento da língua era inadequado (o governo de Cingapura trabalha em inglês). Filhas e filhos impossibilitados de voltar para casa para visitar pais idosos porque o Departamento de Imigração está há meses com seus passaportes. Estudantes talentosos, idealistas, mandados de volta para a Índia ou para os EUA no dia seguinte da conclusão dos seus cursos, embora eles sejam exatamente o tipo de pessoas que o país necessita.

E isso sem contar os que foram dissuadidos de solicitar permissão para estudar aqui. Segundo dados oficiais do Ministério do Interior, os vistos para estudantes da Índia caíram 24% no ano letivo passado e houve uma queda superior a 50% em relação aos 12 meses anteriores. No entanto, o governo britânico estabelece suas relações com a Índia como uma de suas prioridades externas. Por que essa insanidade? Porque, em janeiro de 2010, David Cameron fez uma promessa populista, eleitoreira e descuidada de reduzir a imigração a "dezenas de milhares de pessoas em vez de centenas de milhares". Deu um tiro no pé.

Vale a pena observar que o Ministério do Interior não consegue "administrar" o número de cidadãos britânicos que optam por sair do país em um determinado ano. Além disso, essa meta junta todas as categorias rotuladas como "imigração": asilo, reunião de família, pessoas procedentes da União Europeia e de fora da União Europeia, para trabalho e para estudo. Para começar, seria sensato fazer uma distinção entre elas e, principalmente, separar os estudantes dos outros.

Como costumo criticar a política oficial, começarei admitindo o problema. No universo hipotético de algum teórico político, controlar a imigração pode ser uma medida antiliberal, mas, no mundo real, controlar a imigração hoje é uma das principais preocupações dos eleitores na Grã-Bretanha e na maior parte das democracias ocidentais.

Os temores são alimentados pela histeria de uma mídia e de políticos irresponsáveis, mas a preocupação fundamental deve ser levada a sério. Sendo assim, é absolutamente incrível constatar quão escassas são as evidências com base nas quais essas decisões estão sendo tomadas. Só agora o governo decidiu adotar procedimentos e tecnologia para contar quantos estão deixando a Grã-Bretanha. Enquanto isso, o Ministério do Interior perdeu as pistas de milhares de pessoas, incluindo estudantes ou ex-estudantes.

Somente em 2012, a International Passenger Survey, uma pesquisa por amostragem, começou a perguntar aos que estão saindo se originalmente vieram ao país para estudar. Utilizando os mais recentes dados disponíveis, o especialista do Observatório de Migração da Universidade de Oxford, Scott Blinder, calcula que a diferença entre o número dos que vieram para a Grã-Bretanha para estudar e os que estão saindo após os estudos é de cerca de 99 mil.

Se isto for correto, há uma enorme parcela da cifra referente à imigração anual, que para aquele período foi 166 mil, usando a mesma fonte de pesquisa, e 182 mil pela a cifra oficial. Portanto, se Cameron quiser chegar perto do seu objetivo de "dezenas de milhares" até a próxima eleição, em maio de 2015, precisará de um "massacre do Dia de São Bartolomeu" de estudantes estrangeiros ou, como seu ministro das Universidades sugeriu calmamente, admitir que os estudantes são diferentes.

Para fins políticos, os números referentes aos estudantes seriam então tratados separadamente, embora eles devessem ser contados como imigrantes normais se e quando eles permanecerem aqui para trabalhar. Em seu livro The British Dream, David Goodhart, que critica abertamente os fracassos passados da política britânica sobre a imigração, também sugere isto.

O problema dos "falsos estudantes" é grave, mas em última análise é enganador. Mesmo que nós eliminássemos todas as fraudes nos vistos de estudantes, ainda assim o país teria de decidir quantos estudantes absolutamente legítimos quer receber por ano.

Portanto, o ingresso dos estudantes deve ser tratado como uma questão separada, e não jogado em uma massa demagogicamente marcada como "imigração" - ou seja, aqueles estrangeiros malditos. Obviamente, hospedar estudantes estrangeiros tem um custo. Muitos deles permanecem aqui, mesmo agora.

Em 2008, a Grã-Bretanha tinha o segundo maior contingente de estudantes estrangeiros entre os países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Há razões para isto. Temos as melhores universidades da Europa, além de excelentes instituições de requalificação e escolas de línguas. Temos relações mundiais históricas.

Isto tudo tem um custo, mas um benefício maior. No período 2011/12, os estudantes vindos de todas as partes do mundo gastaram, ao que se calcula, cerca de US$ 17 bilhões em instrução e manutenção pessoal. Os ganhos em termos de relações humanas, maneiras de pensar, afinidades culturais e tolerância internacional são incalculáveis.

Estudo realizado no ano passado concluiu que 84% de ex-estudantes mantiveram vínculos com a Grã-Bretanha e 90% passaram a ter uma percepção melhor do país. Imaginem se pessoas como Bill Clinton, Benazir Bhutto, Aung San Suu Kyi e Manmoah Singh, que estudaram em Oxford, tivessem sido afastadas pelo tipo de tratamento que meus estudantes estrangeiros hoje experimentam rotineiramente.

Como um todo, esse é um aspecto vital do poder brando da Grã-Bretanha, assim como seus filmes, literatura, música, esportes e a BBC. Com todo o respeito pelos nossos soldados, diplomatas e banqueiros, não acho que eles contribuam mais para a Grã-Bretanha no mundo de hoje do que nossos atores, radialistas, escritores e acadêmicos. J. K. Rowling vale dez porta-aviões.

À medida que avançamos no século 21, esse poder brando, provavelmente, será mais importante do que o nosso poder econômico e militar em declínio. A propósito, também educamos seres humanos, cidadãos do mundo. Deveremos pedir desculpas quadruplicadas ao Departamento de Imigração?

*Timothy Garton Ash é professor de estudos europeus na Universidade de Oxford.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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