Os EUA ainda são inovadores?

As empresas americanas estão envelhecendo e têm menor disposição em correr riscos

FAREED, ZAKARIA , THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2015 | 02h04

O mundo anda impressionado com os Estados Unidos ultimamente. Em viagens recentes à Europa e à Ásia, ouvi seguidos elogios à inovação e ao empreendedorismo do país. Mas um conjunto de novos estudos indica que os reluzentes exemplos do Facebook, Snapchat e Uber são enganadores. A inovação americana está em mau estado.

"No decorrer dos últimos 30 anos o ritmo de formação de novas startups nos EUA diminuiu sensivelmente, e a indústria da tecnologia passou a ser dominada por empresas mais velhas", escreve Robert Litan na edição atual da Foreign Affairs. Em 1987, as startups - empresas com menos de um ano de existência - correspondiam a quase 15% de todas as empresas americanas. Mas, em 2011, essa proporção tinha caído para 8%. "Pela primeira vez em três décadas, o número de empresas extintas ultrapassou o de empresas criadas", destaca Litan.

As empresas americanas também estão envelhecendo. Litan sublinha que "a proporção de empresas americanas consideradas maduras, com pelo menos 16 anos de existência, aumentou de 23% de todas as empresas em 1992 para 34% em 2011". O problema dessa tendência é que, historicamente, empresas mais velhas apresentam menor disposição em correr riscos e mais rigidez, optando pela inovação progressiva, diferentemente das empresas mais jovens.

As soluções propostas por Litan são razoáveis e bipartidárias: permitir a entrada de mais imigrantes talentosos que combinem conhecimento tecnológico e apetite pelo risco. Analisar e condensar as regras que dificultam o processo de abertura de uma empresa. Tornar mais fácil a captação de recursos por meio da internet para o financiamento de novas ideias.

A inovação envolve em parte o empreendedorismo, mas também a tecnologia. E há alguns, como o empreendedor bilionário Peter Thiel, que defendem o ponto de vista segundo o qual não vivemos numa época inovadora, apesar de todo o discurso. A firma de capital de investimento de Thiel, Founders Fund, resume a situação em termos desanimadores: "Queríamos carros voadores, mas, em vez disso, conseguimos 140 caracteres", referindo-se ao Twitter.

Parece haver fortes indícios de que a tecnologia da informação foi absolutamente transformadora e continuará a transformar, avançando para indústrias como o atendimento de saúde e o ensino. Mas temo que a ascensão da TI seja o fruto de muitos anos de investimento. Estamos nos alimentando das sementes desses frutos sem criar as bases para as próximas revoluções tecnológicas de grandes proporções.

Se indagarmos aos moradores do Vale do Silício o que faz o lugar funcionar, eles mencionarão muitas coisas - a capacidade de fracassar, a ausência de hierarquias, a cultura de concorrência. Mas quase ninguém fala do papel desempenhado pelo governo. As origens do Vale estão profundamente ligadas ao apoio do governo.

A maioria das lendárias startups que impulsionaram a revolução dos computadores saíram do chão basicamente porque as Forças Armadas e, posteriormente, a Nasa compraram seus produtos até que estes se tornassem baratos e acessíveis o bastante para o mercado comercial. O GPS, tecnologia que agora impulsiona a próxima onda da revolução da informática, foi desenvolvido para o Exército.

E houve o financiamento do governo à pesquisa, algo que muitos enxergam como grandes ofertas de dinheiro às universidades para os gastos com a ciência em geral, mas que consistiram em programas muito mais inteligentes. O financiamento federal para as atividades elementares de pesquisa e desenvolvimento tecnológico deve estar acima de qualquer controvérsia.

Este foi um dos maiores investimentos da história humana. Ainda assim, tal financiamento caiu para o porcentual mais baixo do PIB em quatro décadas. Enquanto isso, o restante do mundo está alcançando os EUA em termos de empreendedorismo e pesquisa. Uma autêntica cultura de startups está emergindo em lugares como Suécia, Israel, Pequim e Bangalore. A China deve ultrapassar os EUA no investimento em pesquisa e desenvolvimento.

Mas há esperança. Um meditativo empresário indiano, Ajay Piramal, me disse: "Acho que uma das razões do sucesso dos EUA é a constante crítica do país a si mesmo. Toda essa crítica faz com que os americanos jamais se tornem complacentes". Assim, enquanto os estrangeiros elogiam a inovação americana de hoje, os americanos devem cuidar para que também haja inovação amanhã. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É ESCRITOR E JORNALISTA

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