Os EUA contra Noriega

Extradição de ex-ditador para a França reacende debate de razões ocultas dele ter se tornado uma ameaça para Washington

Simon Tisdall, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

THE GUARDIAN

Ao amanhecer de um dia do início de outubro de 1989 na Cidade do Panamá, uma multidão começou a se formar do lado de fora do quartel da Força de Defesa panamenha. Dentro do complexo, o reboco quebrado e os buracos de bala nas paredes davam testemunho de uma tentativa de golpe, que fracassara. Agora as pessoas do lado de fora estavam esperando pelo general. Elas queriam vê-lo, ter certeza de que estava vivo.

Então, de repente, a porta do quartel foi aberta e por ela saiu o homem que eles estavam aguardando. Ali, em excelente saúde, estava a figura odiada predileta do presidente George Bush: o general Manuel Antonio Noriega em pessoa - um traficante de drogas indiciado e, naquela época, talvez, o ditador mais infame do mundo.

Agradecendo os aplausos da multidão, Noriega, exibia um sorriso triunfante. "Quem fez isso?", gritou um jornalista referindo-se ao ataque. "Os americanos fizeram isso. Eles querem acabar com o Panamá", respondeu Noriega. Embora ele não tivesse a menor suspeita disso naquela manhã, os dias de Noriega sob o sol estavam contados. Dois meses depois, Bush enviou o Exército para terminar o que os líderes do golpe haviam começado. Noriega foi preso, submetido a um julgamento e sentenciado a 40 anos de prisão.

As razões declaradas para a intervenção americana foram muitas: o fracasso de diplomacia e sanções, entre outras. Mas, a extradição de Noriega nesta semana para a França, reacendeu o interesse pelas razões não declaradas para o "Líder Máximo", também conhecido como "Rosto de Abacaxi", ter se tornado uma ameaça tão grande para o governo americano daquela época e por que medidas tão extremas foram tomadas para silenciá-lo. Noriega era um canalha. Mas, por muitos anos, ele foi um canalha dos EUA - até se voltar contra seus mentores.

Treinado em assuntos militares e de inteligência, ele se tornou um valioso "ativo" da CIA, trabalhando para a agência e para o Departamento de Combate às Drogas dos EUA. Documentos entregues ao tribunal de Miami confirmaram que Noriega recebera (pelo menos) US$ 320 mil do governo americano por serviços prestados.

Em suma, Noriega sabia demais. O júri no julgamento de Noriega por dez acusações relacionadas a drogas não ouviu nada disso. Tampouco ouviu sobre os contatos de Noriega com figuras-chave dos governos de Ronald Reagan e de Bush que, alegadamente, foram coniventes com o fornecimento de armas aos rebeldes Contra da Nicarágua pagas com dinheiro de drogas do cartel de Medellín.

Há muitas outras alegações do gênero e Noriega afirmou que tinha provas da conivência de políticos americanos com o tráfico de drogas para fins políticos. Mas nenhuma foi aceita como evidência. Tampouco foi aceito o pedido do novo governo panamenho para que Noriega voltasse ao país para ser julgado. No Panamá, ele estaria livre para contar tudo que sabia. E para muitos homens poderosos em Washington, alguns deles ainda vivos, essa perspectiva era potencialmente perigosa.

O resultado do julgamento em Miami, assim como a invasão de 1989, nunca deixou dúvidas. Foi um julgamento de fachada. Foi pura vingança. Foi o acobertamento de décadas de ingerência regional ilícita. Mas foi também uma demonstração do poder bruto americano, do qual o mundo teria, em breve, exemplos mais assustadores. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA DE POLÍTICA EXTERNA

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