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'Os EUA decidiram não lidar com os problemas afegãos'

Para analista, influência do Paquistão e corrupção do regime de Karzai contribuíram para fortalecer o Taleban

Entrevista com

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2014 | 02h05

A americana Sarah Chayes desembarcou no Afeganistão em outubro de 2001 como correspondente da National Public Radio para cobrir a guerra iniciada no rastro do 11 de Setembro. Nunca mais deixou o país.

Aprendeu o pashtun, um dos idiomas oficiais do país, foi morar com uma família em um cemitério de Kandahar e mergulhou nos bastidores da guerra e da política afegã. Depois, mudou-se para uma das casas da família Karzai e foi trabalhar para a organização Afghans for Civil Society, fundada por Qayum Karzai, irmão do presidente Hamid Karzai.

A experiência lhe rendeu o convite para ser consultora especial do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, almirante Mike Mullen, cargo que ocupou entre 2007 e 2011. Ao Estado, ela critica a opção americana de não incluir o Paquistão na transição afegã. "Isso implicaria admitir que o Paquistão detém o controle da insurgência no Afeganistão. E como o presidente Obama explicaria que nós estávamos todo o tempo combatendo o mesmo mal que nutríamos com milhões de dólares anualmente?" A seguir, trechos da entrevista:

O que está por trás da postura atual do presidente Karzai, que parece se afastar dos EUA e tentar reaproximar-se do Taleban?

Karzai nunca rompeu totalmente com o Taleban. Você pode identificar isso em discursos, ações ou na escolha de pessoas que colocou em seu gabinete. De fato, um dos maiores mitos sobre o Taleban é de que o grupo surgiu espontaneamente em Kandahar. O Taleban foi criado em uma reunião na casa de Karzai em Quetta, no Paquistão. Ele é um chefe pashtun da tribo Polpazai, que domina Kandahar, e Karzai naquela época começou a se encontrar com alguns clérigos kandaharis e homens de sua confiança para organizar uma força com a qual pudesse tomar a cidade dos mujahedin e, de lá, o restante do país, iniciativa para a qual ele próprio buscou o apoio do Inter-Serviços de Inteligência (ISI) - o serviço de inteligência paquistanês. Ele fez pessoalmente o acordo com o comandante mujahedin local mais forte na época, mulá Naqib. Karzai chegou a ser convidado para integrar o regime Taleban como embaixador, mas declinou.

Por que esse movimento de reaproximação agora?

Karzai quer fazer a diferença agora e depois de 2014. Não apenas na memória dos afegãos, mas mantendo-se importante na política. Suas manobras recentes têm a ver com a sua estratégia de como poderá garantir o melhor papel após o fim de seu governo.

A candidatura de Qayum, tem a ver com isso?

Não acredito que a intenção é ele ser o presidente. O mais provável é que Qayum se retire em nome do candidato da família. Com base na forma como sei que eles operam, posso afirmar que ele não é o tipo de pessoa que assume o papel principal no palco, ele age nos bastidores. É o cara que deixa as marcas dos passos na areia, mas você não o vê caminhando na praia. É o operador invisível do governo.

Com o Taleban também?

Totalmente, mas isso praticamente não importa, porque as negociações de Karzai agora são com o ISI. Ele tentou isolar o Paquistão durante todo seu governo. O presidente deu inúmeros sinais, tentou negociar diretamente com o Taleban, mas o Paquistão nunca deixou, e ele tentou pressionar os EUA para que apertasse os aliados paquistaneses, mas não conseguiu. Agora ele está fazendo o contrário, se afastando dos EUA e se reaproximando do Paquistão.

Os EUA sempre foram criticados por não trazer de fato o Paquistão para a mesa de negociações. Por que agiram assim?

Por que isso implicaria em admitir que o Paquistão detém o controle da insurgência no Afeganistão. E como o presidente Obama explicaria para as mães que perderam seus filhos nessa guerra que nós estávamos todo o tempo combatendo o mesmo mal que nós mesmos nutríamos com milhões de dólares anualmente? Obama nunca quis abrir essa caixa de Pandora. Ele preferiu se retirar.

Retirar-se a resolver o problema?

Durante todos estes anos nós enfrentamos dois propulsores do conflito: o Paquistão, que tem um objetivo na região contra a Índia e usa deliberadamente a violência e o extremismo para atingir isso. E a aguda, estruturada e abusiva corrupção do regime de Karzai. Como o desafeto e a indignação do povo com as práticas de Karzai cresceram, o Taleban encontrou ambiente para voltar. Se o governo te tira do sério, por que ajudá-lo? Se o governo irrita você e o Taleban te oferece uma forma de expressar essa raiva, o que você faz? É apenas uma versão mais violenta da raiva que levou manifestantes às ruas no Brasil ou na Ucrânia. A corrupção aguda tem implicações na segurança internacional. Veja a Primavera Árabe, a Nigéria. No Afeganistão, nós protegemos o governo da ira do povo.

Como você avalia a política americana para lidar com fatores do conflito?

O governo dos EUA decidiu não lidar com nenhum dos dois principais problemas. Nem o comportamento do Paquistão, nem a corrupção do regime de Karzai - ou nosso papel em habilitar essa corrupção. Uma vez que você decide não abordar nenhum dos problemas, é melhor ir embora. Por que matar soldados americanos em nome de uma política que está, em última instância, provocando essas mortes?

O Taleban opera sob ordens do ISI? Há facções independentes?

Há um certo grau de autonomia e obviamente ela é provocada em grande escala por essas insatisfações (da população), mas a liderança do Taleban envolvida em qualquer negociação é controlada pelo ISI.

Quem é o candidato do Paquistão nas eleições?

Essa é uma ótima questão. O que está certo é que os votos individuais dos afegãos comuns não determinarão o resultado dessas eleições. O vencedor será aquele escolhido pelo ISI.

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