Os EUA devem agradecer

Uma guerra sempre agrada a um presidente da república francês. Deste ponto de vista, a guerra no Mali, na África, que François Hollande acaba de deflagrar, se coaduna perfeitamente.

É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2013 | 02h06

Após sete meses de reinado, Hollande estava atormentado. As pesquisas mostravam índices de aprovação de apenas 35%. Os franceses recriminavam o presidente pelo fato de ser um homem amável, mas hesitante e nada corajoso.

O Mali corrige agora um pouco desta imagem. Nada mais justo.

Ninguém, mesmo nas hordas dos seus adversários, suspeita que Hollande tenha tomado essa decisão com a finalidade de dar um pouco de brilho à sua imagem um tanto deslustrada. Todo mundo sabe que ele não seria esse tipo de homem. E, como 63% dos franceses aprovam a guerra ao terrorismo, na terça-feira de manhã, tivemos o prazer de constatar que o jornal da direita burguesa, Le Figaro, que publica todas os dias, há sete meses, o mesmo editorial (ou quase) para dizer que Hollande é um idiota, inconstante, mentiroso, preguiçoso e um zero à esquerda, tecia louvores ao presidente socialista.

A máquina posta em marcha pelo governo funciona muito bem. Entretanto, falta algo: um assistência mais consistente dos países ocidentais.

Todos aplaudem e olham para o outro lado. Mas é preciso ter um pouco de paciência, a ajuda virá sem dúvida. Entre os aliados de Paris, o mais atolado de problemas é Washington.

Evidentemente, os americanos aprovaram a decisão dos franceses, na segunda-feira, no Conselho de Segurança, mas essa decisão vem a calhar.

Há muito tempo os Estados Unidos estão interessados no Mali e no perigo que um Estado islamista representa no coração da África, como uma arma apontada para todas as regiões vizinhas, até o Mediterrâneo. Além disso, os americanos, que não confiavam absolutamente na França, encarregaram-se, há seis meses, de fazer com que o Mali voltasse a pertencer à órbita das nações recomendáveis.

Eles gastaram US$ 600 milhões para formar um Exército malinês bem equipado, bem treinado, bem "democrático", que ajuda o governo de Bamako a estender sua autoridade sobre este vasto país.

Consequentemente, o comandante Amadou Sanogo, que derrubou o poder em Bamako, em março, pôde beneficiar-se de uma formação de vários meses nos EUA. Pior ainda: no ano passado, os americanos constituíram várias unidades de elite malinesas. E o que elas fizeram desde que entraram em operação? Aderiram imediatamente à insurreição. Caros americanos, é quase uma fatalidade. Basta que eles ajudem alguns "resistentes" num país distante para que este grupo tome a frente das insurreições. Como foi o caso de Bin Laden. Ou de vários dirigentes sérvios. E atualmente os do Mali.

Paralelamente, o governo americano nunca perdeu a ocasião para dizer que na África Negra os franceses faziam tudo de maneira errada. Não cabe a Paris, diziam no Pentágono, "policiar a crise".

No fim do ano passado, Susan Rice, a embaixadora americana na ONU, deu sua opinião a respeito do plano que a França apresentara ao Conselho de Segurança para salvar o Mali em via de decomposição, corroído pelos islamistas. Na ocasião, ela disse: "Este plano é uma m...". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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