Os EUA e a paz com o Taleban

Intensificação dos ataques aéreos americanos pressiona os militantes a negociar o fim da guerra com o governo afegão

DEXTER FILKINS, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

Nos últimos quatro meses, os ataques aéreos contra o Taleban aumentaram, o que parece ser um esforço dos americanos para debilitar o grupo e pressionar pelo fim da guerra. De junho a setembro, 21 mil bombas e mísseis foram lançados contra os insurgentes - 700 só em setembro. Os ataques fazem parte de uma campanha do general David Petraeus para romper o impasse militar. Nas últimas semanas, Petraeus aumentou os ataques de unidades especiais para limpar o território dos militantes do Taleban e forçar os insurgentes a selar a paz com o governo afegão.

Autoridades americanas vêm se manifestando publicamente, aprovando os novos contatos entre o Taleban e o governo afegão. Na quarta-feira, elas admitiram estar envolvidas na questão. Na frente diplomática, líderes afegãos afirmaram estar observando os primeiros sinais positivos do Taleban.

Apesar de todos os esforços, afegãos e americanos descartaram boatos de que a paz esteja próxima. Muitos líderes do Taleban não deram ainda nenhum sinal de que estão dispostos a um acordo. Mesmo no campo de batalha, há poucos sinais de que a intensificação dos ataques teve o efeito desejado.

Oficiais americanos disseram que estão tentando ativar um processo de paz, mas que não têm informações sobre sua forma e duração. "Precisamos estar abertos para as oportunidades que surgirem", disse o secretário de Defesa, Robert Gates. Há meses, o presidente afegão, Hamid Karzai, pressionado pelo cronograma de retirada das tropas americanas, tenta discutir com o Taleban o fim da guerra. Até agora, o esforço não deu resultado. Autoridades paquistanesas ajudaram a acabar com um diálogo incipiente, que começava a se esboçar no início do ano.

Segundo oficiais americanos, a intensificação dos ataques foi possível por causa de uma melhor inteligência, que permitiu que os pilotos fossem mais precisos. Grande parte dessa inteligência é fornecida por aviões pilotados à distância. De acordo com estatísticas da Força Aérea, foram mais de 21 mil incursões este ano, superando as 19 mil do ano passado.

Os alvos têm sido insurgentes que fazem bombas caseiras, as maiores responsáveis por mortes de soldados da coalizão. "Temos conseguido encontrar muitos lugares em que essas bombas são fabricadas", disse o coronel Jim Sturgeon, chefe das operações aéreas da Otan. Até o momento, o número mais elevado de ataques aéreos não parece ter aumentado o número de vítimas civis, pelo menos segundo a Otan. Em 2008, entre janeiro e setembro, 169 afegãos morreram ou ficaram feridos em ataques ocidentais. No mesmo período, em 2010, foram 88 vítimas.

Os insurgentes foram responsáveis pela grande maioria de mortes civis, mas ataques a esmo dos EUA e da Otan provocaram uma forte tensão com o governo Karzai. Essa campanha aérea ocorre ao mesmo tempo em que a coalizão intensifica o combate em outras áreas do país, como em Kandahar.

Os membros das unidades especiais atuam com uma ferocidade particular. Nos últimos três meses, elas mataram 300 comandantes taleban, 800 subordinados e capturaram 2 mil insurgentes. "Temos de pressionar para que eles pensem em outras alternativas que não o combate", disse um oficial da Otan. "Ainda não chegamos nessa fase decisiva."

Petraeus está seguindo o mesmo esquema que tirou o Iraque de níveis catastróficos de violência, quando os americanos entraram em negociações com líderes insurgentes locais, matando ou capturando aqueles que não se dispunham a entrar em acordo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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