Os EUA em meio a uma pausa

Governo americano precisa aproveitar a fase para arrumar a casa e se fortalecer ainda mais economicamente

O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2013 | 02h02

Os EUA desfrutam de uma pausa para relaxar no campo da política externa - uma pausa temporária dos rigores normais da história, que permite avaliar a situação tanto no plano interno como externo. Parece estranho afirmar que o país atravessa uma fase tranquila quando enfrenta uma guerra civil na Síria, um Irã em busca de armas nucleares, uma Coreia do Norte irresponsável que já tem tais armas, ameaças constantes de terroristas, uma China que avança e uma mudança climática que se acelera cada vez mais.

Mesmo assim, os EUA aproveitam a pausa. Durante três séculos e meio da era internacional moderna, grandes potências sempre enfrentaram rivais determinados a derrotá-las e substituir a ordem global que elas se esforçaram para instituir. No século passado, esse processo ocorreu três vezes e os resultados foram violentos, dispendiosos e perigosos, incluindo duas guerras mundiais e uma guerra fria.

Existem ameaças, mas elas tendem a ser regionais ou de escala limitada. Nenhuma chega a ser global, imediata e existencial. Os EUA não têm diante de si nenhuma potência global rival. E assim deve continuar num futuro previsível.

O maior problema estratégico dos EUA é saber como ampliar essa fase de calmaria e não desperdiçá-la. O que vai exigir uma limitação do envolvimento externo, bem como restaurar a força doméstica. Os americanos não podem mais pretender reconstruir países no Oriente Médio e no Sul da Ásia, como foi feito a um custo enorme e com pouco sucesso no Iraque e Afeganistão.

Pelo contrário, precisam reanimar a economia. Isso irá melhorar o padrão de vida dos cidadãos e produzir recursos para desencorajar possíveis concorrentes de escolher o caminho do confronto. Também permitirá enfrentá-los se eles decidirem pelo choque.

O governo de Barack Obama assimilou essa noção em termos de política externa, especialmente quanto a manter uma posição mais restrita no Oriente Médio. No entanto, no âmbito interno, não seguiu o mesmo enfoque e, com frequência, desistiu de defender reformas muito necessárias.

Líder. Os EUA continuam "primus inter pares". Em parte, a supremacia americana é consequência de vantagens inatas: estabilidade política, população saudável e um compromisso com o estado de direito. O país tem um rico manancial em termos de energia, minérios, água e terra arável, assim como uma grande abertura para imigrantes, responsáveis por uma parte enorme da inovação.

Há instituições de ensino superior excelentes, capital de risco e um sistema legal que oferece uma segunda chance após um fracasso. E as boas relações com os vizinhos imediatos permitem aos americanos concentrar a política externa em áreas mais distantes e não nas fronteiras, como muitos países o fazem.

Nenhuma das grandes potências desta era, como China, Rússia, Europa, Japão e Índia, desafiam os EUA em supremacia. O PIB per capita americano é pelo menos seis vezes maior que o da China e os EUA gastam mais em defesa do que os dez países abaixo dele reunidos.

Além disso, muitos potenciais concorrentes futuros dependem, em boa medida, do acesso a mercados, tecnologia, bens e serviços dos americanos. Eles nem sempre concordam com os EUA, mas não os consideram um país implacavelmente hostil ou um obstáculo aos seus próprios objetivos fundamentais. E sempre estão preocupados, além de limitados pelos seus próprios desafios políticos, sociais e econômicos.

A China é mais frequentemente citada como o país que seria o maior desafio para os EUA. No entanto, a China é refreada pelo crescimento econômico mais lento, a corrupção onipresente, uma degradação ambiental generalizada, uma população que envelhece e um sistema político inchado. A China e outras grandes potências não desejam derrubar a atual ordem internacional, mas unir-se a ela ou a algo similar. Os chineses estão mais interessados na integração do que na revolução.

Essa situação não é uma razão para a complacência. A supremacia não é uma licença para os EUA fazerem o que bem quiserem. Por definição, uma pausa é sempre temporária. Um desvio da história, não o fim dela. Permite uma mudança na ênfase, não uma retirada do mundo.

Alternativas. A atenção dos americanos deveria se concentrar em lugares onde os interesses dos EUA são maiores e onde os instrumentos políticos à disposição - militar, comercial e diplomático - podem proporcionar resultados muito bons. O que significa limitar as guerras por opção e esforços generalizados para reconstruir sociedades, como a invasão do Iraque, em 2003, e o reforço de tropas no Afeganistão, em 2009.

Significa também que devem evitar uma intervenção armada direta na guerra civil na Síria. E, quanto ao Irã, devem enfatizar a diplomacia, as sanções e outras alternativas, mas não a força militar, para dissuadir o país de ultrapassar o limite no campo das armas nucleares.

E, mais importante, devem aumentar os esforços para manter a estabilidade na Ásia e na região do Oceano Pacífico, onde grandes potências deste século podem facilmente colidir. As ferramentas econômicas, militares e diplomáticas são as adequadas para garantir que não entrem em choque.

Aumentos modestos na presença naval e da Força Aérea dos EUA podem tranquilizar aliados como Japão e Coreia do Sul e, ao mesmo tempo, enviar avisos implícitos para China e Coreia do Norte. A diplomacia pode deixar claro para os chineses que eles serão bem recebidos se aderirem aos novos acordos comerciais regionais, reduzindo a possibilidade de o relacionamento se tornar antagonista.

Os EUA, no campo da saúde, gastam quase duas vezes mais do que outras nações industrializadas por cidadão e com resultados piores. Gastam mais na educação, por estudante, do que muitos outros países ricos, também com poucos resultados. Atrair professores de altíssima qualidade, recompensá-los pelo sucesso e permitir que pais e alunos escolham escolas eficientes significaria um melhor uso dos recursos.

Com um financiamento modesto do governo, seria possível fomentar parcerias público-privadas para reconstituir a infraestrutura esfacelada do país, reformular a política de imigração para dar preferência a vistos e green cards para mais imigrantes com formação avançada, competências necessárias e, sobretudo, reduzir as dotações orçamentárias de longo prazo, diminuindo a relação entre dívida pública e PIB.

Essas medidas, juntamente com uma reforma fiscal, abrangendo empresas e indivíduos, facilitariam um retorno aos altos níveis de crescimento econômico que os EUA desfrutaram durante grande parte da era posterior à 2.ª Guerra.

Não é uma receita para o isolacionismo. Pelo contrário, é uma nova estratégia para os EUA, que consideram a segurança nacional uma função da política interna e externa. Tem-se falado que uma crise é algo valioso demais para ser desperdiçado. Esse também é o caso de uma pausa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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