Eric Thayer/The New York Times
Eric Thayer/The New York Times

Os EUA, entre Coreia e Irã

Principal desafio de Mike Pompeo, se for confirmado como novo secretário de Estado dos EUA, será o de enfrentar as crises de política externa criadas por Trump

Fareed Zakaria* / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 05h30

Caso seja confirmado como secretário de Estado, Mike Pompeo chegará a um departamento que tem sido maltratado por propostas de cortes no orçamento, esvaziado por renúncias e vagas e castrado pelo estilo pessoal e impulsivo de tomada de decisões do presidente Trump. Mas o desafio mais imediato de Pompeo não será reconstruir o departamento e restaurar a moral. Será o de enfrentar uma aguda crise da política externa que é em grande parte da própria iniciativa do presidente - o acordo nuclear com o Irã.

Trump desdenha acordo com o Irã e dificulta negociações com a Coreia do Norte

Pompeu terá em breve que enfrentar um verdadeiro desafio para a política externa. O presidente Trump concordou em se encontrar com Kim Jong-un antes do final de maio. Este poderia ser um acontecimento promissor, desarmando as tensões crescentes na Península Coreana e em toda a Ásia. No entanto, antes mesmo que Trump se sente à mesa de negociações com Kim para discutir um acordo nuclear, a administração terá de decidir como lidar com o acordo preexistente com Teerã.

Trump já anunciou que os EUA não cumprirão mais o pacto nuclear do Irã, a menos que os líderes europeus concordem em “reparar as desastrosas falhas do acordo” (desde o início, ele foi encorajado por Pompeo). As nações europeias não parecem dispostas a endossar mais do que mudanças cosméticas e o Irã recusou categoricamente a renegociação. Isso significa que, até 12 de maio, os EUA deverão retirar o acordo, o que poderia levar o Irã a fazer o mesmo e reiniciar seu programa nuclear. Isso aconteceria ao mesmo tempo em que se realiza a cúpula com a Coreia do Norte - quando os EUA certamente tentarão convencer os norte-coreanos dos benefícios de firmar um acordo similar.

Para compreender as virtudes do acordo iraniano, deve-se lembrar que há um quarto de século, os EUA estavam negociando um acordo nuclear com Pyongyang. Nesse ponto, a Coreia do Norte tinha um programa nuclear, mas sem armas nucleares. O governo Clinton tentava levar o regime a congelar seu programa, concordar com alguns recuos e permitir inspeções invasivas. Mas o acordo alcançado no final foi muito mais limitado do que o esperado. O processo de inspeção foi fraco e os norte-coreanos trapacearam.

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Em 2015, os iranianos também não possuíam armas nucleares (e insistiram que não tinham a intenção de jamais tê-las). Ainda assim, o acordo nuclear exigiu que eles reduzissem gradativamente aspectos significativos de seu programa, desmantelando 13 mil centrífugas, desistindo de 98% de seu urânio enriquecido e efetivamente fechando seu reator de plutônio em Arak. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) tem câmeras e inspetores no Irã em todos os estágios do ciclo de combustível nuclear - desde minas a laboratórios para instalações de enriquecimento. A AIEA atesta que Teerã respeitou o fim do acordo. O próprio Pompeo admitiu.

O acordo do Irã não é perfeito, mas estabilizou uma situação perigosa e em avanço no Oriente Médio. Caso o acordo seja desfeito, uma região já em ebulição ficará muito mais quente. O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, afirmou recentemente que seu reino também adotaria a opção nuclear se o Irã o fizesse. E, voltamos a dizer, tudo isso estaria acontecendo enquanto a administração Trump tenta convencer os norte-coreanos a aceitar limites, congelamentos, retrocessos e inspeções de seu próprio programa nuclear. Por que Kim assinaria um acordo enquanto os EUA renegam o último que assinou?

A tragédia aqui é que esta é uma crise inteiramente auto infligida. Já havia bastante instabilidade no mundo, e essa a administração não precisava criar mais. Pompeu deveria reconhecer que seu trabalho como secretário de Estado será o de resolver problemas, não os produzir, e ele deve preservar o acordo iraniano e gastar seu tempo na Coreia do Norte. Mas isso ainda deixaria um desafio considerável em relação às armas nucleares da Coreia do Norte. Lá, também, a posição do governo americano - e a dele - tem sido maximalista, comprometendo-se em aceitar nada menos do que a total desnuclearização da Coreia do Norte. Essa é uma posição de negociação que pode e deve ser ajustada ao longo do tempo, dependendo do comportamento norte-coreano.

Pompeo deve tirar uma página do livro de seu chefe. Trump declarou que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) era obsoleta apenas para dizer mais tarde que não era. Ele prometeu rotular a China como um país manipulador do câmbio e depois decidiu que não. Insistiu que falar com a Coreia do Norte seria uma perda de tempo e depois anunciou ansiosamente que o faria. O que quer que Pompeo tenha dito sobre o acordo do Irã meses atrás, agora é história antiga. Ele deve simplesmente declarar que, ante as circunstâncias, vale a pena preservar o acordo.

Há custos significativos para a credibilidade e a reputação da nação se Washington continuar a mudar suas posições sobre os principais problemas de política externa. No entanto, há maiores custos para teimosamente persistir com a política errada. Então, Pompeo, repita depois de mim: “O acordo do Irã foi ruim, mas agora é bom”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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