''Os EUA esperam muito mais da China em tudo''

No encontro marcado para terça-feira, na Casa Branca, Obama e Hu devem tratar de meios para conter Pyongyang

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2011 | 00h00

Os EUA precisam extrair da China os compromissos de conter a Coreia do Norte e reduzir sua própria ameaça a Taiwan. Quase sempre indiretas e metafóricas, as respostas negativas de Pequim acentuam um quadro de insegurança na Ásia, capaz de se converter num conflito entre os EUA e a China, segundo Christopher Nelson, um dos mais reconhecidos especialistas em Washington sobre as relações sino-americanas. A Coreia do Norte estará no topo da pauta das conversas entre os presidentes Barack Obama, dos EUA, e Hu Jintao, da China, na terça-feira, na terça-feira, na Casa Branca. Taiwan, alvo de um cordão de mísseis instalados pela China e território protegido pelos EUA, não escapará da agenda. "As autoridades civis da China não confiam mais na Coreia do Norte e não vão cometer suicídio nacional por causa de Pyongyang", avaliou Nelson, vice-presidente sênior da consultoria Samuels International, em entrevista ao Estado.

O primeiro teste de voo do supercaça "invisível" chinês J-20, na semana passada, deu-se horas antes da reunião do secretário de Defesa, Robert Gates, com Hu Jintao. Foi a resposta negativa à proposta dos EUA de diálogo na área militar?

Provavelmente, foi uma demonstração do Exército chinês de que não será forçado pelos civis a um diálogo com os EUA. Há uma desconexão de conceitos entre os dois países. Os EUA acreditam francamente que sua Marinha tem a função na Ásia de garantir a segurança dos oceanos para o livre comércio. A China vê na Marinha americana o imperialismo ocidental tentando impor seu controle. Gates tentou engajar os militares chineses em um diálogo sério. Obama e Gates estão corretos ao insistir nesse objetivo.

Essa situação pode ser o prenúncio de uma tensa polarização, como entre EUA e a URSS?

Não foi uma coincidência o teste do J-20 ocorrer no dia do desembarque de Gates em Pequim. Foi um sinal. Não sei se para nós ou para Hu. Gates tentou convencer o Exército chinês a atuar de forma transparente com os EUA, ao contrário do que aconteceu com a URSS. Há uma enorme interdependência entre os dois países, que nunca existiu com a URSS.

Militares americanos assinalaram a impressão de que, durante a conversa com Gates, Hu não parecia informado do teste do J-20. O que significa isso?

Isso não é novo, mas uma preocupação crescente aqui há dez anos sobre o controle militar sobre o poder civil na China. Eles estão desconectados. Isso é perigoso em qualquer país, seja democracia ou não. Essa é a grande história atrás da história do que Gates disse.

Qual o pior cenário dessa desconexão na China?

De potencial guerra entre os EUA e a China. Essa desconexão se reflete na falta de habilidade das autoridades civis chinesas para ordenar a remoção dos mísseis chineses direcionados a Taiwan. Há anos, os EUA estão apelando aos chineses para retirar os mísseis, como gesto construção de confiança. Isso tiraria a pressão sobre George W. Bush, antes, e sobre Obama, agora, para autorizar a venda de equipamentos militares mais sofisticados a Taiwan, o que acabou acontecendo em 2010 e aumentou a temperatura na região.

A Coreia do Norte tornou-se uma ameaça para a China?

As autoridades civis da China não confiam mais na Coreia do Norte e não vão cometer suicídio nacional por causa de Pyongyang. Com toda razão, os chineses temem o desenvolvimento dos mísseis e da capacidade nuclear da Coreia do Norte. Sabem que não haverá como deter um ataque à Coreia do Sul e, além disso, que essa situação é iminente. O que tentamos dizer aos chineses é que essa situação foi criada pela Coreia do Norte, não pelos EUA. A ação de Pyongyang reduz as escolhas dos EUA. Mísseis norte-coreanos podem atingir Los Angeles. Uma única bomba nuclear destruiria a Coreia do Sul.

Os EUA ainda são hegemônicos na Ásia, apesar de sua relativa perda de poder? Não é a vez da China?

Há três anos, todo mundo falava na perda acelerada de poder relativo dos Estados Unidos e de ganho para a China na Ásia. No último ano, a China agiu com mão pesada na região, e todos os nossos aliados vieram pedir aos EUA para ajudá-los a resistir aos chineses. Vimos isso acontecer com a Índia, o Vietnã, Filipinas e o Japão.

O que se espera do encontro entre Hu Jintao e Obama?

Os EUA esperam mais da China em praticamente tudo. As exceções são a área de mudança climática e as parcerias empresariais em energia limpa. A China está atuando de melhor forma em relação ao Irã. Mas a Coreia do Norte foi a razão de o almirante Mike Mullen (chefe das Forças Armadas dos EUA) ter afirmado em Seul e em Pequim que estamos preocupados com uma guerra acidental. Ele disse ao governo sul-coreano que, se o Norte atacar, os EUA estarão com Seul. Naquele momento, Mullen estava falando aos chineses: acabem com essas porcarias na Coreia do Norte. Ninguém ouvia isso dos EUA há um ano. Houve uma real mudança no modo de os EUA falarem e agirem com a China.

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