Os EUA já foram como a Rússia

Até pouco tempo atrás, gays americanos também enfrentaram intolerância e ameaças

Greg Louganis*, Los Angeles Times/O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2014 | 02h03

Não apoio o boicote aos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi em protesto contra a repressão dos direitos dos LGBT na Rússia. Em parte porque não quero prejudicar os atletas que tanto trabalharam para formar a equipe americana. E também porque tenho certeza de que a melhor resposta para a crescente repressão na Rússia é o engajamento.

Os defensores da igualdade nos EUA devem se unir aos russos de maneira altiva e corajosa. Contudo, precisamos também ter humildade e consciência histórica. Não faz muito tempo, afinal, os gays americanos, incluindo atletas, também se defrontaram com intolerância descontrolada e ameaçadora nos EUA.

Como outros atletas americanos, não pude competir nas Olimpíadas de 1980 em razão de um boicote dos EUA, mas participei como mergulhador em 1976, 1984 e 1988. O público e a mídia não sabiam que eu era gay na época, mas meus companheiros de equipe recusaram-se a compartilhar o quarto comigo e precisei dividir o espaço com um instrutor.

Parte do meu esforço para ter sucesso era a esperança de que, se vencesse, isso me tornaria digno de afeto. Mas todas as medalhas olímpicas do mundo não seriam suficientes para mudar a mente dos intolerantes. A pressão e o sentimento de inferioridade me levaram à depressão que, por sua vez, me levou a mais de uma tentativa de suicídio. Quando revelei a verdade à minha mãe, ela começou a chorar porque, segundo ela, eu seria sempre um cidadão de segunda classe e jamais me casaria.

No entanto, não foi o que ocorreu. Os americanos fizeram avanços extraordinários nos últimos anos. As mentes se abriram, as leis mudaram. Em outubro, meu companheiro Johnny Chaillot tornou-se meu marido, algo que nem minha mãe, nem mesmo eu, acreditávamos ser possível pouco tempo atrás.

Existe um outro sinal de avanço: das nove pessoas da delegação do governo americano em Sochi, três são abertamente homossexuais. O presidente Barack Obama posicionou-se em favor dos direitos humanos ao designar um grupo tão diverso e exatamente essa deve ser a resposta à terrível lei de propaganda contra os gays que o presidente russo, Vladimir Putin, assinou em junho.

Temos de ser modelo de um diferente enfoque para os russos. Os gays e lésbicas da delegação americana são a lenda do tênis Billie Jean King, o vencedor da medalha de ouro olímpica de skate Brian Boitano e Caitlin Cahow, que conquistou duas medalhas olímpicas com a equipe feminina de hóquei dos EUA. Eles terão a oportunidade de representar seu país numa nova capacidade e, sem dúvida, o farão com a graça e a dignidade que caracterizaram suas realizações no esporte.

Sua presença na delegação mostra que os EUA de 2014 não apenas toleram os atletas LGBT, mas os homenageia. No mês passado, quando participei de uma sessão de informação no congresso da Human Rights First, expressei minha esperança de que o engajamento americano nessa questão sobreviva a Sochi. Depois das cerimônias de encerramento, depois que milhares de atletas e de jornalistas voltarem a seus países, os russos LGBT ainda estarão lá, lutando pelo direito de viver e de amar abertamente.

As pessoas, compreensivelmente, desconfiam de figuras públicas que se exprimem abertamente sobre temas políticos. No entanto, no meu caso, esta é uma questão pessoal. Esta é a minha vida. Não sou político nem um analista político.

Como defendo a igualdade na Rússia e em todos os lugares, acho que meu papel principal é simples: ser eu mesmo, um homem gay que tem orgulho. Sempre fui gay, mas nem sempre tive orgulho. Eu, porém, juntamente com o país que tenho a sorte de chamar de pátria, avançamos muito.

*Greg Louganis é ganhador de 4 medalhas de ouro olímpicas em saltos ornamentais.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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