Os EUA no mundo atual

Americanos podem ter papel-chave mesmo não sendo protagonistas nas crises globais

FAREED , ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2014 | 02h05

À medida que os Estados Unidos seguem seu caminho em um mundo em transformação, as pessoas com mais dificuldade de adaptação são os especialistas americanos. Nas últimas semanas, uma nova crença vem se consolidando nas páginas de opinião - de que os EUA estão batendo em retirada e isto terá consequências terríveis em todo o mundo.

Richard Cohen, do Washington Post, fez a habitual lista de coisas horríveis ocorrendo em todo o mundo - especialmente na Síria - pelas quais o presidente Barack Obama deve ser responsabilizado e adiciona algumas novas, como possíveis ações na Catalunha e Escócia com vistas a uma secessão. Diante de todos esses desafios, Obama recusa-se a ser o policial do mundo ou mesmo o seu "supervisor", afirma Cohen.

Sim, se o presidente usasse um apito, escoceses e catalães encerrariam sua busca secular pela independência. Esqueça a redução gradual dos estímulos monetários por parte do Federal Reserve. Niall Ferguson afirma no Wall Street Journal que o grande perigo é "a redução gradual do envolvimento geopolítico". Ele fornece como evidência das desastrosas medidas políticas do presidente Obama o fato de que mais pessoas morreram no Grande Oriente Médio - que vai do norte da África até a Ásia - durante o governo Obama do que no governo de George W. Bush.

No entanto, existe uma enorme diferença nos dois casos. Nos anos Bush, os números foram altos em razão da guerra no Iraque, um conflito iniciado na sua gestão. Nos anos Obama, os números são altos em razão da guerra na Síria, um conflito do qual o governo americano manteve-se afastado.

Muitas das críticas foram feitas antes da queda do presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, de modo que elas tendem a ver na Ucrânia mais um exemplo da fraqueza e irresponsabilidade do atual governo. Os acontecimentos na Ucrânia realmente ilustram como o mundo mudou e como a liderança americana tem sido melhor exercitada nesta nova era.

Em primeiro lugar, os EUA não foram os protagonistas mais importantes na crise. A Ucrânia quer fazer parte da União Europeia e caberá a Bruxelas tomar as decisões que afetarão a sorte de Kiev. Agora, os americanos podem ter um papel-chave e colaborar para impedir a Rússia de destruir as aspirações da Ucrânia. Isto exigirá firmeza e negociações prudentes, não bravatas.

O fato de as pessoas argumentarem a favor de mais intervenção depois de uma década de guerras americanas agressivas (e caras) no Iraque e no Afeganistão é surpreendente.

Por outro lado, voltemos aos anos 50. Alguns anos depois do longo e sangrento impasse na Coreia, apelos por uma intervenção americana vinham de todos os lados. Paris solicitou apoio americano no Vietnã, franceses e britânicos imploraram por uma intervenção americana durante a crise de Suez, os taiwaneses buscaram ajuda americana à medida que as tensões aumentavam no estreito de Taiwan. Em todas essas crises, as altas patentes militares queriam intervir, enviar aviões, soldados ou até mísseis nucleares.

O presidente Dwight Eisenhower rejeitou todos os apelos, recusando-se a envolver soldados americanos em conflitos complexos sem missões e caminhos para a vitória bem definidos. Imagine se um presidente diferente tivesse dado ouvido aos intervencionistas de plantão e os EUA tivessem mergulhado em todos aqueles conflitos. Imagine a desordem no exterior e a corrosão do poder americano internamente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.