'Os EUA perderam a hegemonia na região'

Para o historiador Juan Cole, a 'influência desproporcional' dos americanos no mundo árabe acabou

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h03

Passados 12 meses de protestos, uma mudança de impacto global trazida pela Primavera Árabe já é evidente: foram-se os dias em que os Estados Unidos davam as cartas no Oriente Médio. Daqui em diante, a era em que Washington bancava ditaduras amigas, mediava sozinho o processo de paz palestino-israelense e virava a cara a partidos islâmicos só existirá nos livros de história.

O diagnóstico é de Juan Cole, professor da Universidade de Michigan e um dos blogueiros mais influentes - e polêmicos - nos debates sobre Oriente Médio. Crítico de Israel e ferrenho opositor da guerra do Iraque de 2003, ele conversou com o Estado por telefone. "A Primavera Árabe, indiretamente, põe fim ao poder desproporcional que Washington manteve no Oriente Médio desde o desaparecimento da URSS", defende Cole.

Os EUA continuarão a ser muito influentes, pondera o historiador. Mas, com as mudanças nas ruas e gabinetes árabes, americanos perderam a ascendência incontestável que tinham sobre os centros de poder da região.

Com a queda do Muro de Berlim, ser apadrinhado por Moscou deixou de ser uma opção. Até a Líbia de Muamar Kadafi, a quem o presidente Ronald Reagan chamava de "o cachorro louco do Oriente Médio", passou em 2004 para o lado dos EUA. Franceses ressentidos descreviam essa situação das duas últimas décadas na região como "a hiperpotência americana".

"O fim da hegemonia americana - que era inevitável, aliás - pode ser explicado em dois níveis. Antes, se os EUA quisessem algo no Egito, simplesmente ligariam para Mubarak e pediriam - e o assunto estava resolvido. Agora não será mais assim. Do outro lado, monarquias exportadoras de petróleo, sobretudo a Arábia Saudita, ficaram muito irritadas quando a Casa Branca 'aceitou' a queda de Mubarak. Os sauditas, que eram aliados incondicionais, ignoraram a oposição americana e intervieram no Bahrein para silenciar a oposição."

O "segundo nível" a que se refere Cole é o das novas mídias e de TVs via satélite, como a Al-Jazira, que mudaram a forma de participação política no mundo árabe. Para completar o quadro, há ainda uma "evidente perda de preponderância econômica dos EUA no Oriente Médio". "Mas é uma concorrência com rivais econômicos, como China e Índia, que veio para ficar."

Uma forma de os sauditas demonstrarem sua irritação com o governo Barack Obama pela "omissão no Egito" foi embarcar algumas autoridades para Pequim. "Na China, eles celebraram acordos suculentos e fizeram um grande barulho sobre a parceria que estava nascendo. E o Paquistão (que não é árabe, mas é islâmico), ao se desentender com os EUA, fez o mesmo."

Interlocutores. Outro elemento novo na política externa americana para o Oriente Médio seria a relação com partidos islâmicos. No governo George W. Bush, lembra o historiador, os contatos oficiais dos EUA com a Irmandade Muçulmana do Egito ocorriam no nível de congressistas. Mas a administração de Obama, principalmente após o início dos distúrbios, optou por um contato público e direto com a Irmandade. "Esse governo é mais pragmático e realista. Mesmo antes de ficar claro que os grupos islâmicos poderiam chegar de fato ao poder, já havia tentativas de reconciliação."

Segundo Cole, os Estados Unidos desejariam ter "relações corretas" com esses grupos e não hesitariam em reconhecer um governo egípcio cujo premiê fosse da Irmandade. Mas, para manter os canais abertos com a Casa Branca, os islamistas não poderiam cruzar dois limites: abandonar os acordos de paz com Israel e apoiar o terrorismo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.