Os europeus empurram a Ucrânia para a Rússia

Valores não tradicionais da União Europeia e sua intervenção na soberania de seus países criam resistência para a adesão ucraniana

O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2013 | 02h05

Tanto Rússia como Ucrânia consideram-se nações europeias e em ambas multidões defendem a adesão à União Europeia. Então, como a UE conseguiu que uma situação assim tão favorável se voltasse contra ela? Colocando as nações uma contra o outra e depois forçando a Ucrânia a escolher a Europa em detrimento da Rússia. Em vez de adotar uma estratégia que permitiria à Ucrânia se beneficiar dos seus vínculos com a Rússia, que poderia também servir para um estreitamento das relações entre Europa Ocidental e a Rússia, os negociadores europeus transformaram a associação com a UE num teste de lealdade.

Primeiramente, rejeitaram a sugestão da Ucrânia - à qual a Rússia inicialmente não fez objeção - de que a adesão à UE seria compatível com seu ingresso na União Alfandegária, precursora de uma União Eurasiana que reuniria antigos Estados soviéticos. Em segundo lugar, em vez de ressaltar valores que exaltariam a identidade eslava europeia da Ucrânia, a UE fomentou ativamente a noção de que a adesão era uma "escolha cultural". Como a maioria dos ucranianos considera a Rússia seu vizinho mais amigo, surpreende sua resistência?

Finalmente, os europeus cometeram o erro de ignorar diferenças nos valores religiosos e tradicionais. Parte importante da população cristã ucraniana temia que a UE impusesse um programa moral muito liberal ao sistema educacional e legal, incluindo valores não tradicionais, que muitos rejeitam. Porta-vozes da UE não se empenharam em aplacar tais temores e seu desdém sobre a questão criou uma bomba-relógio ameaçando os esforços de integração por toda a região. Em resumo, em vez de encarar essas negociações como uma parceria, a UE comportou-se mais como proprietária de um clube de golfe autorizando a Ucrânia a ser um caddy, mas jamais se tornar sócio. Não surpreende o fato de Yanukovich ter qualificado o processo como "humilhante" para seu país.

A lição mais importante desse fracasso da UE é a necessidade urgente de mudar a mentalidade de confronto que impulsionou a iniciativa. A resposta à decisão da Ucrânia de adiar o acordo revela que essa iniciativa nada mais é do que uma tentativa de afastar a Rússia da Europa e empurrar as fronteiras da UE para o leste.

Na verdade, essa falsa escolha aumenta o ímpeto no sentido da União Eurasiana - que respeita a herança cultural comum da era soviética, que ainda exerce uma atração importante em toda a região. Para estreitar ainda mais os vínculos, a Rússia já vem fornecendo uma assistência econômica à região muito maior do que qualquer medida que a UE estaria imaginando. Por outro lado, o objetivo final da União Europeia e da União Eurasiana é o mesmo: a formação de uma zona de livre comércio que se estenderá de Dublin a Vladivostok. A única diferença é que, devido ao seu porte, a União Eurasiana terá condições de negociar acordos com a União Europeia em condições muito mais vantajosas do que os Estados conseguiriam individualmente.

Críticos da União Eurasiana oferecem dois argumentos: como a Rússia dominará essa união, se tornará a nova encarnação da antiga URSS; e os benefícios comerciais negociados entre antigos Estados soviéticos inevitavelmente levarão à estagnação. Como a maior economia da região, a Rússia sempre será a força motriz da União Eurasiana.

Mas a noção de que a Rússia conseguirá recriar a URSS é ridícula. Primeiramente, a soberania é a pedra angular da União Eurasiana. E, de qualquer modo, as regras impostas pela União Europeia são muito mais intrusivas. Portanto, se algum grupo deve ser suspeito de ter aspirações que podem corroer a soberania é a União Europeia.

O argumento da estagnação econômica também é equivocado porque compara a União Europeia com a Rússia - e não à União Eurasiana no seu conjunto. Além disso, a Rússia integra o Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), grupo que deterá economias dominantes no mundo em 2050. Esses críticos estão sugerindo ser do interesse da Ucrânia descartar a oportunidade de acesso a essas potências emergentes apenas porque isso também deve ampliar a relação com a Rússia. Defensores da União Eurasiana também têm argumentos importantes.

O contraste não poderia ser mais marcante. A União Europeia propõe o abandono de uma herança comum e a adoção de alternativas liberais impopulares. Propõe uma redução da autonomia legal e econômica nacional em troca da perspectiva efêmera de uma adesão, que ocorrerá daqui a décadas, e se ocorrer.

A União Eurasiana propõe uma união em torno de uma herança comum existente. Propõe a criação de parcerias econômicas para expandir os mercados e criar novas indústrias globalmente competitivas. Finalmente, busca a integração na economia global com base na força de mercado coletiva.

A questão delicada a ser respondida agora não é porque a Ucrânia não assinou o acordo de adesão à UE, mas, para começar, o que levou seus líderes a acharem que esta adesão seria uma boa ideia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PROFESSOR DE POLÍTICA

DA UNIVERSIDADE DE RHODE

ISLAND E PESQUISADOR DA

FULLBRIGHT NA UCRÂNIA

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