Os Faustos republicanos

Cedo ou tarde eles terão de escolher se vão se opor a Trump ou caminhar ao lado dele e conviver com seu descrédito

David Brooks / The New York Times, O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2017 | 05h00

Muitos membros republicanos do Congresso firmaram um pacto Faustiano com Donald Trump. Eles não admiram Trump enquanto homem, não confiam nele como governante e não concordam com ele em assuntos importantes, mas respeitam o fascínio que ele exerce sobre seus eleitores, esperam que ele aprove os projetos de lei que apresentarem e certamente não desejam se alinhar com os inflamados progressistas ou a mídia que estimula o debate público.

Uma posição compreensível: quantas vezes na vida seu partido controla todas as alavancas do poder? Quando isso acontece você se dispõe a tolerar um comportamento circense da parte de Trump para que o governo cumpra sua tarefa.

Mas estes últimos dez dias deixaram claro que os Faustos republicanos agora estão numa posição insustentável. O pacto que firmaram com o diabo começa a cobrar um preço muito alto. Na verdade eles entregaram a alma.

Em primeiro lugar, o governo Trump não é um governo republicano; é uma administração nacionalista étnica. Trump insultou igualmente os dois partidos em seu discurso de posse. Os asseclas de Bannon vêm pressionando com força destrutiva os republicanos no que se refere à formulação de políticas. O governo se coloca totalmente contra o comércio. Os instintos econômicos de Trump são corporativistas, e não privilegiam o livre-mercado. Se Obama tentou atuar dos bastidores, a política externa de Trump envolve um abandono do engajamento no plano global. Críticos ferrenhos de Paul Ryan são nomeados para cargos na Casa Branca e, ao mesmo tempo, se Reince Priebus tem alguma autoridade ela não está muito evidente.

Em segundo lugar, mesmo que a ideologia de Trump não fosse tão perniciosa, sua incompetência é uma ameaça a tudo que o cerca. Dizer que é um amador na Casa Branca é caluniar os amadores. As recentes ordens executivas foram redigidas e assinadas sem nenhuma revisão e assessoria legal, estão repletas de erros elementares que qualquer criança pode notar.

Parece que o governo Trump é menos um governo e mais uma pequena camarilha de blogueiros e tuiteiros que não se comunicam com a população que realmente os ajudou a chegar onde estão. As coisas realmente ficarão complicadas quando os problemas do mundo começarem a nos atingir.

Em terceiro lugar, está cada vez mais claro que o odor da intolerância penetra em tudo e qualquer pessoa que se aproximar muito também vai acabar exalando o mau cheiro.

O governo podia apenas ter tornado mais rigoroso o processo de exame de pedidos de asilo para refugiados e estabelecer um limite de 50 mil vistos de entrada, mas em vez disso ele decidiu insultar o Islã. O governo podia simplesmente ser mais severo com relação ao processo de imigração, mas Trump decidiu comprar uma briga com o México inteiro. 

Outros republicanos esforçaram-se para deixar claro que a guerra contra o terrorismo não é uma guerra contra o Islã ou os árabes, e Trump também se empenhou ao máximo no sentido oposto.

Em quarto lugar, não temos lembrança de nenhum governo cuja identidade fosse tão marcada pela crueldade. O governo Trump é sempre hostil. Foi rápido em provocar o sofrimento de uma menina síria de 8 anos que foi alvo de bombardeios e perdeu o pai. Sua deportação significa que no futuro as telas das TVs estarão repletas de imagens de famílias sendo separadas.

E essas características não mudarão para melhor no decorrer do tempo. Como Eliot Cohen, que trabalhou no governo Bush, escreveu no The Atlantic, “exatamente porque o problema é uma questão de temperamento e caráter, a situação não vai melhorar. Ela vai piorar à medida que o poder embriagar Trump e os que o cercam. E provavelmente o fim será calamitoso - protestos e violência no país, um colapso das relações econômicas internacionais, das grandes alianças, ou talvez uma ou mais guerras novas (até com a China) além das que já temos. Não será uma surpresa se o seu mandato terminar antes, com um impeachment”.

Cedo ou tarde os Faustos republicanos terão de escolher entre duas alternativas. Como ocorreu no governo Nixon, os líderes republicanos terão de se opor a Trump ou caminhar ao lado dele e conviver com o seu descrédito.

Trump superou as expectativas com suas escolhas para o gabinete de governo, mas seus dez primeiros dias no cargo deixaram claro que este não é um governo normal. É um problema que exige uma resposta. É um grupo cruel, incompetente que exige de cada funcionário lealdade ou a degola. Já vimos John McCain e Lindsey Graham formando uma oposição republicana. Os outros honrados senadores terão de escolher: Collins, Alexander, Portman, Corker, Cotton, Sasse e assim por diante.

Como ocorre no caso de muitos governos você às vezes concorda outras vezes discorda.. Mas este governo é um perigo existencial para o partido e a nação. Cedo ou tarde todos terão de decidir de que lado estão e viver para sempre com sua escolha. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

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