EFE/Leonardo Mua
EFE/Leonardo Mua

Os favoritos são opções arriscadas 

Candidato conservador é crítico do processo de paz, enquanto esquerdista já flertou com o chavismo 

The Economist, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2018 | 05h00

Todas as tardes em Samaná, uma pequena cidade produtora de café nos Andes colombianos, pessoas montadas a cavalo passam de bar em bar tomando aguardente, bebida mais popular da Colômbia. Com as línguas soltas pela bebida, eles tagarelam sobre a eleição. Álvaro Uribe, ex-presidente de direita, “é um cavaleiro como nós”, declara Brayan López, negociante de cavalos. Ele e quase todas as outras pessoas em Samaná votam no protegido de Uribe, Iván Duque, que lidera as pesquisas. Como presidente, Uribe enviou o Exército para expulsar de Samaná uma unidade das Farc. Ao todo, cerca de 220 mil pessoas morreram no conflito armado.

Esta eleição presidencial é a primeira após o fim da guerra. Juan Manuel Santos, sucessor de Uribe, assinou um acordo com as Farc, em 2016. O grupo foi desarmado, mas a eleição não foi uma celebração da paz. Surgiram grupos armados menores que ocuparam parte do território liberado pelas Farc e pelo cultivo de coca. Os ex-guerrilheiros têm vaga garantida no Congresso e enfrentam punições leves. Uribe foi contra o acordo e Duque é favorito, em parte, porque muitos colombianos queriam que Santos adotasse uma linha mais dura.

A paz também abriu as portas para a candidatura de Gustavo Petro, ex-guerrilheiro do M-19 e ex-prefeito de Bogotá. Pesquisas o colocam em segundo lugar e provável rival de Duque no segundo turno – o primeiro político de esquerda com chance de se tornar presidente. Para muitos, isso é aterrorizante. Petro, no passado, falou bem de Hugo Chávez, o falecido líder da Venezuela. Os investidores olham para ele com medo. Isso fortaleceu Duque, cujos partidários acusam o esquerdista de querer importar o “castro-chavismo”.

Os dois candidatos se beneficiam da rejeição a Santos, que deixa a presidência com aprovação de apenas 14%. O crescimento econômico é lento. O governo de Santos aumentou impostos e os colombianos estão fartos do estilo elitista que ele incorpora. Em suas campanhas presidenciais, em 2010 e 2014, ele aceitou contribuições da Odebrecht. Ainda assim, a Colômbia está melhor do que muita gente pensa. A economia se recupera de uma desaceleração que começou com a queda no preço do petróleo, em 2014. A decisão de Santos de aumentar o IVA impediu que o déficit orçamentário crescesse ainda mais. Quase 5 milhões de pessoas saíram da pobreza desde 2009. O ano passado foi o menos violento em quatro décadas. 

No entanto, as pesquisas favorecem candidatos que desviariam a Colômbia do caminho definido por Santos. Duque, filho de um importante político, tem a difícil tarefa de aproveitar o entusiasmo por Uribe em lugares como Samaná, ao mesmo tempo em que atrai o voto dos que o associam a grupos paramilitares de direita. Alguns temem que ele mude a Constituição para garantir a volta de Uribe no futuro. Ex-chefe de uma divisão do Banco Interamericano de Desenvolvimento e ex-senador, Duque tem um currículo pequeno para um aspirante a presidente, o que aumenta as preocupações de que ele seja um fantoche de Uribe. Prometendo ser o “primeiro presidente do século 21”, ele fala em uma “economia laranja”, com base em talento e conhecimento. Para as pessoas que temem que sua presidência seja um cavalo de Troia para Uribe, ele diz: “Serei apenas Duque”.

Embora as pesquisas o coloquem à frente, Duque deve se preocupar com a paixão despertada por Petro. Milhares de simpatizantes foram a seu último comício em Bogotá. Para jovens e pobres, que consideram a política suja e as elites presunçosas, Petro promete uma “Colômbia humana”, com papel maior do Estado em saúde, educação e na economia. Como Duque, ele tenta acalmar os que o consideram extremista e nega que buscará imitar o modelo chavista. Alguns críticos se preocupam mais com seu estilo do que com sua ideologia. Como prefeito de Bogotá, ele menosprezou a Câmara Municipal, emitiu decretos e afastou aliados. 

Se as pesquisas estiverem certas, a modernidade de Duque deve derrotar o radicalismo de Petro no segundo turno, dia 17. Essa seria a última chance do establishment colombiano. Se fracassar, um esquerdista como Petro pode ser o próximo da fila. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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