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Os fiéis da balança

Militares têm incentivos tanto para apear os chavistas do poder quanto para protegê-los

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2019 | 06h00

Propor uma saída negociada para a Venezuela, como fazem México e Uruguai, é desconhecer o regime chavista, a situação venezuelana ou ambos. A única forma de estancar a sangria é desalojar Nicolás Maduro e seus companheiros do Palácio de Miraflores. Só quem pode fazer isso são os militares venezuelanos. Eles têm incentivos tanto para apear os chavistas do poder quanto para os seguir protegendo.

Os oficiais venezuelanos são espionados por centenas de agentes da Direção de Inteligência Militar Cubana. Dezenas estão presos, e sofrem torturas no Centro Nacional de Militares Processados de Ramo Verde, para delatar outros dissidentes - com êxito, segundo se vangloria Maduro.

Os chavistas têm know-how nessa área. Hugo Chávez conspirou com outros militares e civis por mais de uma década, antes da tentativa de golpe de 1992, quando se tornou nacionalmente conhecido. Não por ter liderado o golpe, mas por ser bem-falante, foi escolhido para fazer um pronunciamento à nação pela TV, antes da rendição negociada. Anistiado, elegeu-se presidente em 1998.

O regime entregou aos generais o controle da lucrativa atividade de importação dos produtos consumidos na Venezuela, da venda do petróleo e do ouro. Esses privilégios são motivo de ressentimento entre as patentes mais baixas. Soldados, cabos e sargentos estão em contato com o sofrimento de suas famílias. Tenentes, capitães e majores perderam a esperança de chegar sua vez de alcançar esses benefícios, diante do colapso econômico iminente.

Juan Guaidó foi proclamado presidente interino às 13h44 (hora local) de quarta-feira. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, conseguiu reunir os comandantes militares para confirmar seu apoio a Maduro só às 14 horas do dia seguinte. O silêncio de 24 horas foi mais eloquente do que o discurso de Padrino. As Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, assim rebatizadas por Chávez, precisaram de um tempo para saber se continuavam, de fato, bolivarianas.

Essa tintura ideológica pode se revelar bastante superficial, e exibir, debaixo dela, a liga que forma a doutrina militar, composta de dois elementos: o espírito de corpo e a segurança nacional, que inclui a viabilidade econômica do país, a segurança alimentar e a coesão social.

Mais importante do que garantir a sobrevida do regime, para os militares, é a sua própria união sob uma mesma liderança e comando. Não existe comando sem liderança, nem liderança desmoralizada. Seu bem-estar pessoal também é crucial, e parece assegurado na lei de anistia aprovada pela Assembleia Nacional.

Depois de ter queimado US$ 50 bilhões emprestados pela China e US$ 17 bilhões pela Rússia, a Venezuela está sem reservas e sem perspectivas de obtê-las: a produção do petróleo deve cair cerca de 300 mil barris por dia este ano, aproximando-se de 1 milhão por dia (eram 3,2 milhões quando Chávez foi eleito, em 1998); e os EUA podem cancelar suas importações, que em 2017 somaram 670 mil barris por dia, quase metade da produção venezuelana.

Na sexta-feira, o Banco da Inglaterra bloqueou uma tentativa de saque de ouro no valor de US$ 1,2 bilhão pelo governo venezuelano, graças a gestões diretas do secretário de Estado americano, Mike Pompeo, e do chefe do Conselho de Segurança Nacional, John Bolton, perante suas contrapartes em Londres. União Europeia, EUA, Canadá e Peru impuseram sanções financeiras.

Rocío San Miguel, a mais prestigiada especialista em assuntos militares da Venezuela, acredita que eles acabarão aceitando a solução do “exílio” de Maduro. “As lições de 1958, 1992 e 2002 indicam que as Forças Armadas são pragmáticas”, afirma a analista, referindo-se ao golpe que pôs fim à ditadura do general Marcos Pérez Jimenez e às abortadas intentonas posteriores. “Abandonam presidentes que perdem o apoio do povo. Evitam conflito militar.”

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