Os filhos e o clã de Saddam

Saddam Hussein parece ter fugido, talvez com ferimentos, da tentativa americana de o assassinar. A CIA, inspiradora de Bush neste caso em especial, fez um bom diagnóstico. Como nas máfias ou entre os déspotas da velha e sombria Ásia, o poder não sobrevive ao desaparecimento do padrinho. Mas este padrinho não está só. Ele tem o seu bando. No caso de Saddam, o bando é composto de sua própria família e de amigos originários da mesma cidade do líder iraquiano, Tikrit, uma vila sunita - o que explica por que os árabes sunitas são donos do poder no Baath e em Bagdá, mesmo que constituam apenas 14% da população, em um país onde os xiitas são bem mais numerosos.No primeiro círculo do clã, os dois filhos, claro, Udai, o mais velho, com 39 anos, e Qusai, o mais novo, com 37 anos.Udai é um louco. Playboy do tipo vulgar, é de tal modo violento, que seu pai, não exatamente um modelo de candura, teve que tomar providências. Em outubro de 1988, ele foi aprisionado por seu pai depois de matar a golpes de bastão um de seus funcionários mais fiéis.Na realidade, Udai desconfiava que esse funcionário havia apresentado ao seu pai a mulher que se tornaria sua amante.Saddam o soltou. Mas alguns anos mais tarde, em 1996, o mesmo Udai, no volante de sua Porsche, que andava de capota aberta nas noites de Bagdá, escapou de uma rajada de metralhadora. Vingança? Udai coleciona mulheres. Quando quer uma, descarta o marido e fica com a mulher, antes de correr para uma outra. Essa é a provável causa do atentado que sofreu em 1996, a vingança de um marido. Curiosamente, os tiros não atingiram a cabeça, mas a barriga.Desde então, Udai ficou com problemas, apesar dos esforços que grandes especialistas franceses, chamados misteriosamente por Bagdá, dispensaram a ele.Todos esses incidentes, essas feridas, esses modos brutais, de bárbaro, diminuíram o poder de Udai. Ao contrário, o menor, Qusai, está sempre ampliando sua influência. Não muito grande e um pouco gordo, introvertido, de aparência correta, discreto, sossegado.Entretanto, os especialistas garantem que ele é ainda mais perigoso que Udai.Em 2001, ele tirou o ministério das relações exteriores do inoxidável Tareq Aziz e seus grandes bigodes para lá colocar uma de suas criaturas, Naji Sabri. Ele tentou colocar as mãos no ministério do petróleo, combatendo a corrupção exorbitante que lá prosperava.Ele dirige o Serviço de Segurança Especial e coordena a defesa de Bagdá. Ele controla os 8 mil homens da Guarda Republicana Especial de Saddam Hussein. Supõe-se que ele será o encarregado, se for o caso, de lançar as armas não-convencionais, se estas ainda existirem.Uma nuvem de tios, de cunhados, de meio-irmãos, enfim, todo o tipo de filiações, também gira em torno do "sol". Ao menos, faz tempo que eles estão vivos e não tombam sob as balas de Saddam. É um ofício interessante e igualmente perigoso, fazer parte da família do tirano.Dois episódios apenas, levantados na longa "saga de sangue". Em 1989, o cunhado (e, aliás, primo) de Saddam era ministro da Defesa, Adnan Khairallah Toulfah. Um dia, ele se pôs a defender a irmã, Sajida, que Saddam começou a repudiar. Resultado: um acidente de helicóptero, e a morte.Em 1995, os dois genros de Saddam (Hussein Kamel Al-Majid e Saddam Kamel El-Majid, muito bem colocados no governo) fugiram para a Jordânia com suas respectivas famílias. Lá, eles abriram a boca, os imbecis! Denunciaram a arbitrariedade do sistema de Saddam Hussein. Mas seis meses mais tarde, eles se retrataram e voltaram para o Iraque. Esses dois homens foram muito imprudentes.E como na casa de Saddam Hussein tudo se passa em família, é o tio desses dois infelizes, Ali Hassan El-Majid, o responsável pelas execuções. Uma maneira de esse tio provar ao tirano que ele, da mesma família que os dois traidores, é leal ao seu mestre adorado.Veja o especial :

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