Os franceses estão em guerra

Estratégica do Estado Islâmico merece uma reação adequada e em escala global

Dominique Moisi, Project Syndicate, O Estado de S. Paulo

17 de novembro de 2015 | 08h20

Desde os ataques contra o Charlie Hebdo e um supermercado kosher em janeiro, os parisienses sabiam que o barbarismo espreitava de perto. Mas uma coisa é saber, esperar que aconteça, e outra é ser confrontado com a realidade. Na sexta-feira, a realidade nos atingiu com força. Estamos em guerra. Seria errado - e até perigoso - não reconhecê-lo. E, para vencer, serão necessárias clareza, união e firmeza.

A clareza nas análises é do que mais precisamos. Mal conhecemos nosso inimigo, a não ser pela intensidade do seu ódio. Para compreender sua estratégia, temos de admitir com quem estamos lidando: um inimigo inteligente e até racional, à sua maneira. Já o subestimamos por muito tempo. Agora, é urgente que mudemos de rumo. Nas semanas mais recentes, a estratégia do Estado Islâmico (EI) trouxe a morte às ruas de Ancara, Beirute e Paris - e aos céus sobre o Sinai. As identidades das vítimas não deixam dúvidas em relação à mensagem: “Curdos, russos, libaneses, xiitas, franceses: vocês nos atacam e, por isso, iremos matá-los”.

O momento escolhido para os ataques é tão revelador quanto os alvos. Quanto mais o EI perde territórios na Síria e no Iraque, maior a tentação de travar uma guerra para dissuadir intervenções futuras. Os ataques a Paris coincidiram com a perda da cidade de Sinjar. É claro que a célula terrorista responsável pelo ataque não foi criada na esteira das recentes derrotas. Ela já havia se instalado, esperando para ser ativada. Isso demonstra a flexibilidade tática do EI.

Se, desta vez, o EI decidiu atacar em Paris pessoas que não eram humoristas, policiais nem judeus foi porque o fato de não serem alvos as deixou desprotegidas. Desta vez, os assassinos optaram pela “quantidade” em vez de “qualidade”. O objetivo era matar o maior número possível. Essa estratégia é possível porque o território controlado pelo EI oferece um refúgio. O califado representa para o grupo aquilo que o Afeganistão foi para a Al-Qaeda.

 

Além da clareza, precisamos de união, começando na França, onde os cidadãos devem rejeitar sua classe política caso continue a se portar de maneira sectária. A união também deve ser alcançada na Europa. Ouvimos repetidas vezes que o continente se encontra numa crise de identidade. Bem, a Europa acaba de encontrá-la. Ser europeu significa confrontar juntos o flagelo do barbarismo, defender nossos valores.

A união também será exigida do Ocidente. O pronunciamento do presidente Barack Obama demonstra que EUA e Europa são unidos por laços muito mais significativos do que aquilo que nos separa. Claro que precisamos ser realistas. O EI espera de nós covardia e exagero na reação. Seu objetivo é promover uma guerra de civilizações. Não podemos ser apanhados por essa estratégia. Mas a clareza vem em primeiro lugar. Quando Paris é atacada, é necessário falar em guerra. Ninguém quer repetir os erros dos EUA, mas usar tais erros como álibi para não enfrentar o mundo seria um erro de outro tipo. A resposta da Europa deve ser dura, mas não deve se afastar do estado de direito. Afinal, estamos em uma batalha política, na qual nosso amor à vida deve prevalecer contra o amor deles à morte./TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

DOMINIQUE MOISI É PROFESSOR DO KING’S COLLEGE, DE LONDRES

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