Os fundamentalistas muçulmanos do norte malinês

Cenário: Karima Bennoune / NYT

É PROFESSORA DE DIREITO INTERNACIONAL ESPECIALISTA EM NORTE DA ÁFRICA, ORIENTE MÉDIO, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2013 | 02h06

Antes do início da recente intervenção francesa no Mali, 412 mil pessoas já haviam abandonado suas casas no norte do país, fugindo de tortura, execuções sumárias, recrutamento de crianças-soldados e violência sexual contra mulheres por parte dos militantes fundamentalistas. No fim de 2012, entrevistei na Argélia e no sul do Mali dezenas de malineses do norte, incluindo muitos dos que fugiram recentemente. Seus testemunhos confirmaram os horrores que os radicais islâmicos, que se proclamam guerreiros de Deus, infligem às comunidades.

Em primeiro lugar, os fundamentalistas proibiram a música no país, que tem uma das mais ricas tradições musicais do mundo. Em julho, apedrejaram até a morte um homem e uma mulher que não estavam casados por suposto adultério. Em outubro, começaram a fazer listas de mães não casadas.

Os lugares sagrados tampouco são poupados. Esses "defensores da fé", como gostam de se autodefinir, demoliram os túmulos dos santos sufis da cidade lendária de Timbuctu e também teriam destruído muitas igrejas no norte, onde refugiados da pequena minoria cristã afirmaram que anteriormente se sentiam aceitos. Essas táticas típicas da Al-Qaeda são completamente alheias ao Islã do Mali, conhecido por sua tradição de tolerância.

E é justamente essa abertura que os jihadistas buscam esmagar. "As pessoas que vivem aqui terão de aceitar o fato de que estamos construindo um novo país com base na sharia (lei islâmica)", disse o comissário de polícia da cidade de Gao, em agosto. Até o início da ação militar, neste mês, os cidadãos locais tentavam sozinhos resistir à imposição da sharia - e lutaram valorosamente. Um jornalista de rádio foi ferozmente espancado por islamistas depois de criticar amputações. As mulheres organizaram manifestações em Timbuctu contra as novas regras sobre o uso do véu, até que disparos acabaram com seu protesto.

O diretor de uma escola mista de ensino médio de Gao relatou que a instituição foi ocupada pelo Movimento por Unidade e Jihad na África Ocidental. Os militantes anunciaram que seu objetivo era proteger a escola. Entretanto, logo levaram computadores, refrigeradores e cadeiras. "Nós nos consideramos sob ocupação militar. Nós nos consideramos mártires", disse o educador. Sua vida corre um sério risco por manter a unidade aberta e continuar ensinando estudantes de ambos os sexos conjuntamente, embora agora seja obrigado a instalá-los em alas separadas nas salas de aula.

Desde que os jihadistas tomaram conta da cidade, a economia de Gao estagnou. Todas as quintas-feiras, há exames sobre matéria religiosa em árabe, língua que muitos habitantes não falam. Os fundamentalistas querem ensinar à população predominantemente islâmica de Gao "a ser muçulmana". Como faz o Al-Shabab na Somália e o Taleban no Afeganistão, uma brigada da moralidade faz patrulhas, verificando quem não usa véus austeros o suficiente e quais celulares tocam músicas. Falar com uma mulher em público é uma ofensa; essa proibição causou tanto terror que alguns homens fogem de medo ao ver uma mulher na rua.

O diretor tem assistido a punições públicas para documentar as atrocidades, o que resulta em ver várias vezes seus concidadãos sendo chicoteados. Viu "presos" cujos pés foram serrados. Quase chorando, ele disse: "Ninguém suporta isso, mas eles nos impõem esse espetáculo. Quem assiste, chora".

Alguns adversários locais e internacionais que se opõem à intervenção militar defendem a negociação com os rebeldes. Mas a negociação com os que acreditam ser agentes de Deus e impõem uma forma de governança totalmente alheia ao povo do norte do Mali não pode ser bem-sucedida, principalmente enquanto a região continuar ocupada. "A população não é favorável à sharia", é um refrão que ouvi inúmeras vezes - de refugiados de Timbuctu e Kidal; mulheres e homens; muçulmanos e cristãos. A preservação da tradição de secularismo do Mali é essencial para todos.

As decisões sobre a estratégia a ser adotada a respeito desse potencial Afeganistão no Saara devem partir do pressuposto de que o que está acontecendo ali não é simplesmente uma questão de segurança regional ou global, mas de direitos humanos básicos. A atual intervenção poderá infligir um golpe decisivo ao recente avanço do fundamentalismo em todo o Norte da África, mas somente se os soldados franceses e da África Ocidental tiverem o cuidado de distinguir entre civis e jihadistas, que se escondem no meio dos inocentes. Também precisarão evitar que o problema migre. Afinal, uma das causas da ocupação islamista no Mali foi o deslocamento de homens armados da Líbia, depois da queda de Muamar Kadafi, em 2011. Por outro lado, a vizinha Argélia registrou centenas de milhares de vítimas enquanto combatia os fundamentalistas durante a guerra civil, no início dos anos 90. Desde então, muitos jihadistas argelinos cruzaram a fronteira rumo ao norte do Mali.

Alguns malineses temem que a intervenção estrangeira traga graves consequências para suas casas e sua possibilidade de sobrevivência. Mas a maioria dos refugiados que conheci antes da ação francesa já decidiu que "os riscos da não intervenção são dez mil vezes piores do que os da intervenção", como uma ativista dos direitos das mulheres me disse em Bamako. Ou, como um jovem refugiado de Gao que encontrei na Argélia afirmou: "Não queremos a guerra, mas se essas pessoas não nos deixarem em paz, lutaremos contra elas". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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