Alex Wong/Getty Images/AFP
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Os grisalhos da economia americana à mostra em Iowa

Há 20 anos, o Estado já tinha uma das populações mais velhas dos EUA; número de idosos cresceu rapidamente desde então

Dionne Searcey, Alan Rappeport, Trip Gabriel e Robert Gebeloff, The New York Times

03 de fevereiro de 2020 | 21h34

Como em muitos eventos de campanha durante a semana, o salão da prefeitura de Pete Buttigieg, em Dubuque, estava repleto de pessoas idosas, trocando histórias pessoais sobre problemas de saúde, falando de suas preocupações com os preços dos remédios e indagando sobre o acesso a tratamentos experimentais.

Um homem disse que sua mulher “acabou de entrar para o grupo dos septuagenários” e tocou no assunto de suicídio, perguntando a Buttigieg sobre alguma legislação para ajudar idosos com demência grave a terem uma “transição assistida”.

Todos os candidatos presidenciais democratas estavam em Iowa em busca de apoio nos caucus de um eleitorado mais branco e mais rural do que a maior parte dos Estados Unidos. O papel desmedido de Iowa nas eleições com frequência é criticado exatamente por essa razão. Mas Iowa espelha a economia e a demografia do país de um modo surpreendente – a população que envelhece rapidamente e as inumeráveis consequências sociais e políticas que provêm deste fato.

Similarmente, a economia que tem de dar suporte a essa população também espelha o restante do país. Seu nível de desemprego é baixo, mas o crescimento econômico é modesto. As áreas metropolitanas prosperam, mas as rurais que dependem da agricultura, não.

“A economia de Iowa se divide em duas – temos uma economia metropolitana próspera e uma economia não metropolitana que, como um todo, não se recuperou da Grande Recessão, perdeu empregos, pessoas, e estamos vendo as consequências”, afirmou David Swenson, cientista do departamento de economia do Estado de Iowa.

Iowa é conhecido por sua agricultura de milho e soja. Sua pizza de posto de gasolina, a vaca de manteiga, são estereótipos, disse Mary Swander, uma das antigas poetas laureadas de Iowa. Ela tem escrito sobre como os estrangeiros encaram os moradores. “Somos os rústicos e caipiras do interior, o sertão, a roça.”

“Na realidade, temos todos os problemas que são um microcosmo do restante dos Estados Unidos. E como a nação, o Estado é cada vez mais impulsionado pelos impactos de uma população que vem envelhecendo”, disse Swander, que vive no condado rural de Johnson.

Há 20 anos, Iowa já tinha uma das populações mais velhas dos EUA e o número de idosos cresceu rapidamente desde então. Mas o número de idosos no país aumentou ainda mais rápido e hoje Iowa está exatamente na média na classificação dos Estados por idade da população.

A parcela de pessoas com mais de 60 anos de idade alcançou uma alta histórica, de acordo com dados de recenseamento. Iowa é hoje um dos 27 Estados onde a população abaixo de 60 vem caindo e o número de pessoas com mais de 60 vem aumentando.

Como em outras partes dos EUA, a população idosa provoca consequências adversas para a economia. A onda de aposentados debilita as poupanças, mudando os gastos para os serviços de saúde e reduzindo a mão de obra.

Num sentido amplo, a discussão sobre economia na campanha eleitoral de 2020 tem incorporado temas de preocupação geral para os eleitores mais jovens: dívida estudantil, universidade gratuita, e uma inclinação progressista a taxar a riqueza.

Em Iowa, contudo, uma das batalhas mais intensas entre os candidatos que estão na frente se concentra num assunto de maior importância para os moradores mais velhos do Estado: a previdência social.

O senador Bernie Sanders, de 78 anos de idade, e o ex-vice-presidente Joe Biden, de 77, entraram várias vezes em choque sobre o assunto, quando o campo de Sanders questionou o trabalho de Biden na área da previdência social, com vistas a afastar dele os eleitores mais idosos, ao passo que Biden insistia que pretendia fortalecer o programa e ampliar os benefícios.

Um efeito do envelhecimento que se verifica em Iowa é que sua população aumenta mais lentamente do que no restante do país e, segundo um estudo recente da universidade de Iowa, este vem se tornando um problema cíclico, uma vez que possíveis novos moradores se sentem desencorajados de se mudar para um Estado cujo crescimento é muito lento.

Aos problemas com uma população idosa vêm se juntar as dificuldades por que passa a economia do campo. Estados agrícolas como Iowa vêm lutando para acompanhar o ritmo do restante dos EUA em termos de criação de empregos e salários. De acordo com Swenson, Iowa está atrasado nesse aspecto, com a sexta pior taxa em termos de criação de emprego nos Estados Unidos.

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Forças econômicas que já vinham pesando na economia de Iowa foram exacerbadas por medidas adotadas por Trump que aumentaram a pressão sobre fazendeiros e produtores num momento em que muitos pensavam em se aposentar.

Jeff Link, estrategista democrata em Iowa e cofundador de um grupo chamado Focus on Rural America, citou os preços em queda do porco e da soja no ano passado, resultado da guerra comercial com a China. A tensão comercial também prejudicou as manufaturas que atendem os fazendeiros.

Link disse que as isenções concedidas pelo governo às empresas de petróleo também foram um problema para o setor de etanol: pressionaram os preços do milho.

“Ele prometeu apoiar os plantadores de milho e o etanol e escolheu o petróleo”, disse Link referindo-se a Trump.

John Heisdorffer, produtor de soja de Keota, em Iowa, que é presidente da Sociedade Americana de Soja, disse que os agricultores estão frustrados com Trump e decepcionados com o fato de não verem um aumento imediato das vendas de soja desde que o acordo comercial com a China foi assinado, em meados de janeiro. “Todo mundo procura ver que candidato pode mudar este clima de pessimismo que tomou conta de nós nos últimos dois anos”, disse. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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