Os heróis armênios esquecidos da resistência ao massacre

Antropólogo pesquisa a autodefesa de alguns armênios durante genocídio

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2015 | 02h33

 

A história do genocídio armênio tem um capítulo pouco conhecido, mas o historiador Hartyun Marutyan está disposto a mudar isso. Há anos, ele pesquisa os casos de resistência armada e autodefesa contra as forças do império otomano na cidade de Van, localizada em um território que hoje pertence à Turquia.

Ele luta para que o governo reconheça o papel de heróis daqueles que pegaram em armas para proteger sua comunidade e resistiram por 72 dias até a chegada dos soldados russos, impedindo um massacre ainda maior de armênios em 1915.

A resistência de Van não foi a única. Em outras sete cidades e sete comunidades ou vilarejos os moradores se mobilizaram para se defender. A resistência na comunidade de Musaler acabou por tornar-se a mais famosa graças ao romance Os Quarenta Dias de Musa Dagh (ou Musaler), do escritor austríaco Franz Werfel, traduzido para 32 idiomas.

Um monumento à resistência de Musaler foi erguido na cidade que ganhou seu nome, na Província de Armarvir, a 14 quilômetros da capital armênia, Erivan.

Segundo Marutyan, também antropólogo e chefe do Departamento de Estudos Antropológicos Contemporâneos da Academia Nacional de Ciências da Armênia, todas têm em comum a luta pela sobrevivência daqueles que não queriam ser mandados para a morte "como um rebanho de ovelhas". Para ele, é importante contar a história dessas pessoas e explicar o que o império otomano na época tratou como uma rebelião, servindo de pretexto para justificar o ataque aos armênios.

Marutyan lembra que a ordem para eliminar o povo armênio foi dada antes desses moradores se organizarem. De acordo com a pesquisa do historiador, em 1915, o governador de Van na época recebeu telegramas sobre a "questão da Armênia" - correspondências semelhantes estão expostas no Museu do Genocídio em Erivan. As mensagens pediam aos homens armênios entre 18 e 45 anos que se alistassem no Exército otomano, que combatia os russos.

Ao se apresentarem, em vez de receber armas, eles foram instruídos em tarefas de construção. Assim, os homens adultos foram retirados de Van e desarmados. Depois, mortos. Segundo o professor, ao se darem conta do que estava acontecendo e prever que seriam atacados, os moradores começaram a se mobilizar, formando comitês para organizar a resistência.

Quando os ataques começaram, havia 6 mil soldados para cada mil moradores. No cerco, até as crianças desempenhavam tarefas. A elas, cabia recolher as balas disparadas pelos inimigos para serem reutilizadas.

O professor explica que eles resistiram por 72 dias até a chegada dos russos, fazendo as tropas inimigas recuarem. Com a posterior saída desses soldados, a população de Van conseguiu fugir para o norte. Na fuga, vários foram mortos por curdos, mas, segundo o professor, a autodefesa em Van conseguiu salvar entre 150 mil e 180 mil do massacre. "Van foi a única vitoriosa."

O professor quer agora que o nome oficial da data de lembrança do genocídio, assim como faz a dos judeus, mencione também os heróis do genocídio. Ele disse ter escrito uma carta ao governo com esse pedido. "Sim, fomos vítimas, mas também fomos combatentes", afirmou.

Questionado pelo Estado, o ministro das Relações Exteriores, Edward Nalbadian, respondeu que na véspera do centenário do genocídio, dia 23 de abril, a Igreja Apostólica Armênia canonizou os 1,5 milhão de mortos no massacre. "Consideramos todos vítimas do genocídio."

 

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