Ross D. Franklin/AP
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Os hispânicos dos Estados Unidos

Até meados deste século, haverá mais de um desses imigrantes para cada quatro americanos. David Rennie explica o que isso significa para a América

The Economist, O Estado de S. Paulo

12 Março 2015 | 19h53

Em três mandatos como representante do Colorado no Congresso, John Salazar se acostumou a ser chamado de mexicano e não de americano por eleitores irados. Durante os embates a respeito da legislação sobre saúde, o Obamacare, um eleitor lhe disse: “Volte para o lugar de onde você veio”. Os ataques foram totalmente inapropriados.

Salazar se orgulha de sua origem hispânica, mas ele vem de um lugar com raízes americanas mais profundas que as dos Estados Unidos. Um de seus ancestrais, Juan de Oñate y Salazar, foi um dos fundadores da cidade de Santa Fé, no Novo México. Isso ocorreu em 1598, cerca de 250 anos antes que esse se tornasse território americano – e quase uma década antes que mercadores aventureiros ingleses aportassem em Jamestown, na Virginia. 

Homem lacônico, de jeans e chapéu de vaqueiro, Salazar é um rancheiro do Colorado de quinta geração e cultiva o mesmo pedaço do vale de San Luis que seu bisavô colonizou há 150 anos, exatamente quando o México cedeu o território aos EUA. Como afirmam famílias como as de Salazar, elas jamais atravessaram a fronteira, a fronteira é que as atravessou. 

Seu vale nas montanhas desertas, no entanto, também é o lar de muitos recém-chegados de língua espanhola. A razão é a atual revolução demográfica. Em 1953, quando Salazar nasceu, a população hispânica dos Estados Unidos era de aproximadamente 3 milhões. Ela começou a crescer significativamente depois das mudanças introduzidas na lei da imigração durante o mandato do presidente Lyndon Johnson, e chegou perto dos 9 milhões em 1970.

Hoje, ela é de 57 milhões, de um total de cerca de 321 milhões de americanos. E deverá dobrar até meados deste século, quando estão sendo projetados nada menos que 106 milhões de imigrantes de um total de 398 milhões de americanos. Nos últimos 20 anos, os migrantes hispânicos que moravam em alguns Estados e cidades espalharam-se até por lugares que não registravam grandes fluxos de estrangeiros desde os dias dos trens a vapor e do telégrafo. O maior grupo, com 34 milhões, é de americanos de origem mexicana. Desde 2005, essa realidade levou o México a abrir cinco novos consulados, de Little Rock, no Arkansas, a Anchorage, no Alasca – inúmeros mexicanos trabalham nas perigosas empresas de pesca de caranguejo no mar gelado.

Os hispânicos estão mudando a definição do americano tradicional. Durante quase 200 anos, desde a presidência de George Washington até a de Ronald Reagan, os brancos de origem europeia constituíram de 80 a 90% da população dos EUA. 

Na época da realização do censo de 2010, a proporção de brancos não hispânicos (que chamaremos de brancos daqui em diante para simplificar) baixara para 64%. Por volta de 2044, segundo projeções, ela cairá para menos da metade.

Alguns conservadores observariam que a maioria dos hispânicos era de cidadãos brancos. Segundo eles, burocratas federais criaram, nos anos 70, uma nova categoria que transformou migrantes acostumados ao trabalho duro numa nova raça artificial, encerrando-os num gueto de reivindicatórias e de benefícios concedidos pelo governo. 

Mas isso é simplificar demais a questão: durante muitas gerações, americanos hispânicos só foram tratados como brancos no papel, sem acesso a todo tipo de coisas: de escolas a restaurantes ou cemitérios no interior do país.

Em termos mais amplos, é o declínio dos brancos que torna tão espetacular a revolução demográfica dos nossos dias. Os EUA viram duas outras ondas migratórias provenientes da Europa, até mesmo proporcionalmente maiores em relação à população daquela época: no século 19, e no início do século 20. Com o tempo, estes novos americanos passaram a ser considerados respeitáveis, quando se assimilaram à cultura da maioria, cujas raízes se encontravam em ideais explicitamente definidos como anglo protestantes: confiança em si, forte individualismo, parcimônia e trabalho duro. Mas, agora, aquela maioria branca está a caminho de se tornar minoria.

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Estudo indica que, em 2050, os trabalhadores hispânicos superarão os brancos na proporção de três para um
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Este fenômeno afetará todos os aspectos da vida pública, da política à cultura popular. Anualmente, cerca de 900 mil hispânicos nascidos nos EUA atingem a idade de votar. Nenhum partido deveria acreditar que terá seus votos eternamente, mas o trabalho mais duro é o dos republicanos.

Nas eleições presidenciais de 2012, o candidato republicano Mitt Romney obteve nove em cada dez dos seus votos dos brancos, enquanto Obama recebeu oito em cada dez votos das minorias. Se os republicanos pretenderem alcançá-los, a linha dura do partido terá de abandonar suas posições radicais sobre a imigração. Os hispânicos provavelmente não ouvem as mensagens a respeito de empregos ou de programas de saúde de candidatos que também propõem deportar suas mães.

As empresas estão começando a prestar atenção na ascensão dos hispânicos. Joe Uva, presidente da área de empresas hispânicas e conteúdo da NBC Universal, uma grande companhia de mídia, gosta de lembrar aos colegas executivos que, com um poder aquisitivo que totaliza cerca de US$ 1,1 trilhões, se os americanos hispânicos fossem um país, seriam o 16.º do mundo.

Uma razão enorme para vermos com otimismo a ascensão dos hispânicos é o fato de eles estarem tornando os EUA um país muito mais jovem. A idade média dos brancos é de 42 anos; a dos negros é 32; e dos hispânicos 28. Entre os hispânicos nascidos nos EUA, a média de idade é de espantosos 18 anos. Enquanto outras partes do mundo enfrentam o futuro com populações idosas que estão encolhendo, os hispânicos enchem os pátios das escolas americanas de crianças, e abastecem o futuro exército de mão de obra. Desde aproximadamente 2011, nasceu um número de crianças brancas e não brancas mais ou menos equilibrado. As mulheres brancas já têm menos filhos do que o necessário para substituir seus pais. A taxa de fertilidade das mulheres hispânicas caiu muito, mas a média de 2,4 filhos ainda está acima do limite de substituição populacional. 

Num livro publicado recentemente, Diversity Explosion (Explosão da Diversidade, em tradução livre), William Frey da Brookings Institution, faz um fervoroso apelo para se comemorar a nova demografia dos EUA. Daqui a poucos anos, mostram seus números, haverá tantos brancos acima dos 65 anos quanto crianças brancas. Entre as não brancas, as crianças superam em número os idosos numa relação de quatro para um. Se excluirmos os hispânicos e outras minorias que crescem muito rapidamente, os números dos EUA se assemelharão aos da Itália, um país cheio de aposentados com uma força de trabalho cada vez menor. Mas, na situação atual, a população em idade de trabalhar nos EUA deverá crescer consideravelmente.

Dificuldades. É importante não ser ilogicamente otimista a respeito das dificuldades que estão pela frente. Se a população hispânica nos EUA dos anos 2050 tivesse de se parecer com a de hoje, apenas dobrando em tamanho, uma grande aventura demográfica poderia acabar mal. Por enquanto, os jovens hispânicos têm mais probabilidade de completar o segundo grau do que os brancos, mas têm menor probabilidade de completar os estudos. Os hispânicos adultos têm 50% menos probabilidades de trabalhar como gerentes ou profissionais.

Poucos têm casa própria, e muitos foram profundamente atingidos pela crise financeira de 2008. Multidões de migrantes rumam para o norte para fugir dos cartéis da droga e da violência, mas a proximidade dos EUA com países pobres, com governos de capacidade desigual, ao sul, são por outro lado uma oportunidade de negócios para criminosos. Em 2013, o National Gang Intelligence Centre, um organismo do governo, calculou que as organizações criminosas mexicanas multinacionais se associaram a membros das gangues de rua somente em Chicago.

Os céticos com relação à questão da imigração em geral apontam para outro questão que parece pairar sobre os hispânicos. Grupos de imigrantes anteriores viram o progresso a cada geração que passava, mas os membros hispânicos têm o hábito de estagnar ou mesmo de retroceder. Os filhos de imigrantes hispânicos nascidos nos EUA tendem a ser menos saudáveis do que seus pais, têm taxas de divórcio mais elevadas e acabam na prisão muito frequentemente. Saltando dos filhos dos migrantes para seus netos, estudos mostram resultados acadêmicos que declinam na terceira geração. 

Os conservadores preocupam-se com a “assimilação para baixo”. Textos acadêmicos questionaram se tornar-se americano implica um risco em termos de desenvolvimento? Alguns consideram esses indicadores a prova de que estrangeiros de uma cultura alienígena criaram uma nova subclasse que precisa ser repelida.

Tais temores são exagerados: muitas tendências estão caminhando na direção certa, embora lentamente. Este estudo visitará escolas que estão trabalhando com métodos inovadores para melhorar os índices de graduação na escola secundária hispânica e reduzir a gravidez entre as adolescentes. Um número muito maior de hispânicos está se matriculando na faculdade – e outros mais estariam tentando estudar se políticos conservadores apostassem no longo prazo, mudando leis estaduais que exigem que filhos de migrantes ilegais paguem muito mais do que seus colegas americanos para cursar a universidade pública. Diante do fato de que uma a cada quatro crianças nas escolas públicas é hispânica, só o interesse econômico pessoal deveria encorajar os Estados a trabalharem para torná-las preparadas para o século 21.

Este estudo mostrará como alguns republicanos no Tennessee, Estado conservador, vêm debatendo mudanças pragmáticas. Infelizmente em outros Estados os fanáticos do Tea Party estão na linha de frente da direção contrária. O Texas figurava entre os Estados conservadores que favoreciam um enfoque mais comercial da imigração. Mas em 2014 um número desalentador de republicanos do Texas disputou a eleição prometendo rejeitar uma lei visionária de 2001 que garantia a subvenção das taxas de matrícula da faculdade para estudantes residentes no Estado, independente da sua situação legal.

Steve Murdock, da Rice University, ex-diretor do departamento de censo dos EUA, publicou recentemente um documento alertando aos texanos que os hispânicos não vêm obtendo notas e qualificações melhores para substituir os brancos com formação superior que estão se aposentando no Estado. Em 2050, prevê o documento, os trabalhadores hispânicos deverão superar em número os brancos na proporção de três para um, mas se não houver mudanças na política educacional o Estado será mais pobre e menos competitivo.

A ideia de uma subclasse hispânica permanente precisa ser tratada com cautela. Num estudo realizado em 2011, Brian Duncan da Universidade do Colorado, em Denver, e Stephen Trejo, da Universidade do Texas, em Austin, afirmam que a teoria da assimilação para baixo da terceira geração pode ser uma anomalia estatística. As pessoas que se qualificam americano-mexicanas com frequência são menos educadas e menos fluentes em inglês do que seus primos mais bem integrados, especialmente filhos de casamentos mistos que podem não mais se identificar como mexicanos. O que faz que os dados sobre os hispânicos pareçam piores do que são.

A disseminação do pânico de uma invasão hispânica contribuiu para distorcer as percepções da sociedade. Muitos americanos subestimam enormemente a incidência da imigração ilegal. Uma pesquisa feita em 2012 pela Latino Decisions, pediu a não hispânicos que imaginassem qual seria a porcentagem de imigrantes ilegais de língua espanhola. Em média as pessoas indagadas disseram ser de um em três. O dado real é um em seis. E a nova onda de imigração como causa do crescimento da população hispânica foi superada em 2000 pelo nascimento de crianças hispânicas nos EUA. Das 17 milhões de crianças hispânicas, 93% são cidadãs nascidas no país. Mesmo se uma redoma de vidro fosse colocada sobre os EUA, acabando com toda imigração, e todos os hispânicos sem documentos fossem reunidos e deportados, dezenas de milhões permaneceriam.

Os riscos de os imigrantes sem documentos serem enviados de volta para seu país diminuíram recentemente. Em junho de 2010 Barack Obama anunciou que o governo federal não mais deportaria determinados migrantes ilegais que chegaram aos EUA quando criança, medida que pode abranger até um milhão de jovens. Em novembro, Obama estendeu o programa para incluir cerca de 4 milhões de pais de cidadãos e residentes permanentes, embora a medida esteja agora sendo debatida nos tribunais.

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Os riscos de os ilegais serem enviados de volta para seu país diminuíram em 2010 graças a Barack Obama
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A juventude da população hispânica deveria ser comemorada, mas ela apresenta um risco político grave: um choque com os brancos mais velhos. A geração dos anos 50, hoje começando a se aposentar, é um grupo predominantemente branco. O alarme foi soado num ensaio de 2010 escrito por Ronald Brownstein, The Gray and the Brown(O grisalho e o moreno) prevendo um confronto de gerações entre o grupo daqueles que estão já com os cabelos grisalhos, propenso a preservar os benefícios que os favorecem, e os jovens multiétnicos de pele morena, que querem que sejam feitos mais gastos em creches, escolas e faculdades. 

Frey concorda. É revelador, afirma ele, que os Estados com as leis anti-imigração mais severas com frequência possuem uma população predominantemente branca e idosa vivendo ao lado de crianças de origens diversas (no Arizona, por exemplo, 83% das pessoas com mais de 65 anos são brancas, ao passo que 58% das crianças são não brancas).

Uma lógica mais tranquila deveria estimular os americanos mais idosos a acolher os contribuintes jovens bem educados de qualquer cor. Mas em política a cultura é tão importante quanto a lógica. Mesmo diferentes gerações de hispânicos podem se chocar, como John Salazar presenciou no Colorado. Durante uma tentativa para aprovar uma ampla reforma da imigração no Congresso, ele foi censurado por eleitores americano-mexicanos cujas famílias estavam no seu vale “para sempre”. E eles perguntaram a Salazar porque ele estava tentando ajudar os “mojados” – um termo pejorativo para se referir aos mexicanos que supostamente entraram nos EUA nadando através do Rio Grande.

O Vale de San Luis, local calmo, muito arraigado, é um bom lugar para descobrir como os hispânicos mudarão os EUA de infinitas maneiras – e como o país os mudarão, lembrando que os hispânicos são os mais antigos e os mais novos moradores dos EUA. Os ancestrais de Salazar não se beneficiaram muito do fato de serem os primeiros colonos não indígenas no vale outrora branco. Os mórmons começaram a chegar nos anos 1870. Os americanos mexicanos eram considerados apreciadores de bebida alcoólica, indiferentes à educação e indignos de assumir funções locais. 

“Quando eu era criança, os ‘anglos’ detinham todas as posições. De vez em quando temos um juiz espanhol”, explicou Salazar, sem ressentimento. Um tio-avô serviu no Legislativo do Colorado, mas foi arruinado pela Depressão dos anos 30. Segundo a família, os bancos executaram hipotecas de fazendeiros mexicanos aparentemente não confiáveis e ao mesmo tempo pouparam os vizinhos “anglos”. Décadas mais tarde, quando o futuro congressista ainda era garoto, foi espancado por falar espanhol no pátio da escola.

Os EUA oferecem muito mais oportunidades agora. John Salazar cresceu em uma família de oito filhos numa fazenda de 21 hectares sem eletricidade e recentemente aposentou-se como comissário agrícola. Hoje, ele supervisiona as terras da família que totalizam 1.618 hectares. Seu irmão mais novo, Ken Salazar, foi o primeiro senador hispânico pelo Colorado antes de se tornar o primeiro secretário do Interior de Barack Obama.

Salazar tem um senso profundo da história. Orgulhosamente, ele mostra parte da terra à margem do rio, prateada pelo gelo e protegida pelos chorões e álamos. Os diretores de bancos tiraram essas terras do seu tio-avô há quase um século, mas ele recentemente comprou-as de volta. “O lugar mais belo do mundo”, diz ele. 

Salazar está mais interessado no futuro, explicando os planos para o rancho e refletindo sobre o que os imigrantes farão se forem tirados das sombras. São novas ideias “que tornam nosso país forte”, diz ele. Uma observação muito americana.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA E TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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