Os iguais se reconhecem

Romney deve ter passado tanto tempo ouvindo queixas sobre 'parasitas' que não percebeu o que disse na reunião de arrecadação de fundos em que criticou eleitores

Nicholas Kristof, The New York Times , O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2012 | 03h03

NOVA YORK - Enquanto assistia ao vídeo em que Mitt Romney criticava asperamente os cidadãos que dependem da ajuda do governo em razão de uma verdadeira cultura da dependência do Estado, fiquei pensando nos soldados americanos que conheci no Afeganistão e no Iraque. Eles não pagam imposto de renda enquanto se encontram nas zonas de combate, e, quando regressam ao país, passam a viver de benefícios federais.

Mesmo quando retornam incólumes, os ex-combatentes, em sua maioria, jamais pagarão impostos elevados. Na realidade, o que todos eles dão à nação é a própria vida, embora tenham direito a benefícios do governo - como uma indenização de US$ 100 mil para suas viúvas, quando eles morrem em batalha.

Talvez eu esteja sendo injusto, porque tenho certeza de que quando Romney reclamou naquele vídeo dos aproveitadores, não estava se referindo aos soldados. Mas os 47% (mais precisamente 46%) das famílias americanas que ele desdenhou por não pagar imposto incluem muitos outros trabalhadores que recebem um salário modesto ou aposentados que contribuíram muito mais significativamente para os EUA do que aqueles que podem gastar US$ 50 mil para participar de um jantar de arrecadação de fundos, como aquele no qual Romney foi gravado em maio.

E quanto aos professores de jardim de infância que recebem salários muito baixos em escolas urbanas para crianças carentes? E os jovens policiais e bombeiros? E os assistentes sociais que lutam para ajudar as crianças que sofrem abusos? Uma lição que podemos extrair disso é o narcisismo de muitas pessoas que hoje fazem parte da classe mais rica. Elas se sentem vítimas da legislação fiscal - embora às vezes sejam beneficiadas por um imposto menor do que o de suas secretárias e possam viajar com o jatinho da companhia adquirido graças às brechas oferecidas pela lei.

Embora os republicanos, que gostam de se lamentar, se refiram essencialmente ao imposto de renda federal (na maioria pago pelos ricos), o mais relevante é o imposto de renda total - que inclui taxas de todos os tipos: estaduais, municipais e federais. Segundo a associação Cidadãos pela Justiça dos Impostos, a maioria das famílias americanas paga mais do que 25% de sua renda em taxas em geral - e é possível que isso seja mais do que Romney paga.

Romney é um homem esperto e, afirmam seus amigos, um pragmático e não um ideólogo, então, o que deu nele para fazer esse tipo de afirmação? Existe uma verdade subjacente nisso tudo - as dotações e os aproveitadores são realmente um problema para nós - e ele a aumentou a ponto de torná-la irreconhecível. Talvez Romney tenha passado tanto tempo numa bolha primária republicana, ouvindo queixas sobre os 47% de parasitas, que ele não de deu conta de como seus comentários soam obtusos e arrogantes .

Jeb Bush observou no início deste ano que até ícones conservadores como o presidente Ronald Reagan não se enquadrariam facilmente no Partido Republicano dos nossos dias. O presidente Richard Nixon, que fundou a Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) seria considerado de esquerda. Este ano, os eleitores das primárias republicanos praticamente expurgaram o partido dos remanescentes centristas, como o senador Richard Lugar, um peso pesado da política externa que merece as gratidão dos americanos por contribuir para tornar o nosso país mais seguro com sua política sobre bombas nucleares "extraviadas".

Na época da minha infância no Oregon, os democratas eram considerados malucos. O governador George Wallace (defensor da "segregação para sempre") capitalizou o rancor populista em suas campanhas presidenciais. Lyndon Larouche foi um líder típico que aspirava à indicação democrata.

Na época, eram senadores pelo Oregon Mark Hatfield e Bob Packwood, ambos republicanos de um estofo que hoje quase deixou de existir.

Hatfield foi firmemente contrário à Guerra do Vietnã e Packwood defendeu o direito ao aborto. O governador do Oregon da época, Tom McCall, era republicano e um importante defensor do meio ambiente.

Telefonei para Packwood e perguntei se ele e Hatfield seriam republicanos se tivessem de começar tudo de novo. "É o que nos perguntávamos, justamente", respondeu.

Packwood observou que, antigamente, o Partido Republicano tinha apoio dos sindicatos, o apoio dos negros, o apoio da população urbana e de ambos os lados do país. "Historicamente, os republicanos têm sido mesmo geniais ao jogar fora as suas vantagens", observou.

É fácil perceber a mudança do eleitorado republicano nas pesquisas de opinião. Nos anos 60, mais de 65% dos democratas e dos republicanos manifestavam sua confiança no governo. Atualmente, a proporção caiu para cerca de 30% entre os democratas - e para apenas 5% entre os republicanos.

Na minha opinião, as pesquisas mais desanimadoras são as que se referem aos fatos. Uma sondagem da Dartmouth, este ano, mostrou que os republicanos acreditam, numa proporção de mais de 3 para 1, que "o Iraque tinha armas de destruição em massa quando foi invadido pelos Estados Unidos em 2003".

A mesma pesquisa concluiu que os republicanos acreditam, quase na proporção de 3 para 1, que o presidente Barack Obama nasceu em outro país. Os democratas também têm esse tipo de ilusão (por exemplo, relutam em atribuir certas melhoras a um presidente republicano), mas os republicanos de hoje parecem desproporcionalmente fora da realidade.

Outro exemplo de ilusão radical ocorre quando Romney, filho de um governador e presidente de uma companhia afirma: "Tudo o que Ann e eu possuímos foi ganho por nós da maneira antiga, ou seja, com o trabalho árduo".

Romney provou que estava certo. Evidentemente nós temos problemas com as pessoas que se consideram vítimas, embora estejam se beneficiando das brechas da lei fiscal.

Uma delas está concorrendo à presidência. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É JORNALISTA

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