Os infelizes bailarinos
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Os infelizes bailarinos

Dançarinos franceses aderem à greve contra governo da França

Gilles Lapouge, Correspondente, Paris

31 de dezembro de 2019 | 14h57

A França passa por uma greve de trens, de ônibus e de motoristas. Ela dura mais de 25 dias, uma das mais longas da era moderna. Mas isso não é tudo. Percebemos que uma greve imensa como esta contém inúmeras “pequenas greves”, as quais surgem, uma após a outra, e aproveitam a agitação geral para tornar públicos os tormentos e decepções de determinadas categorias.

Na noite de domingo, os parisienses ficaram sabendo desse efeito colateral da “greve dos trens” quando viram uma centena de “ratinhos” dançando O Lago dos Cisnes, de Piotr Tchaikovski, no pátio da Opéra Garnier. Lá estavam eles, os bailarinos: jovens, bonitos, em seus trajes de trabalho. Não de macacão, mas de sapatilhas, tutus e vaporosas ondas de renda. Eles contaram com o apoio de 75 músicos.

Logo, aprendi algumas coisas importantes. A palavra “tutu”, que designa suas saias de renda, pode ser explicada porque elas são sempre cortadas em “tule”. Quanto à expressão “ratinhos de ópera”, seria uma invenção dos poetas românticos, dos anos 1830, principalmente Victor Hugo e Théophile Gautier, que gostavam de beber absinto e brincar com essas pessoas bonitas.

Aprendi uma terceira coisa: no início da carreira e por vários anos, os bailarinos franceses ganham apenas 2.030 euros (R$ 9.141) por mês, uma quantia pequena diante de seus estudos intermináveis e de seu talento, de sua estrela e dos feitos físicos que realizam todos os dias. 

Se, apesar de tudo, você conseguir se tornar uma estrela do balé, será menos maltratado, mas não ganhará muito mais, talvez 6.000 euros (R$ 27 mil). Como não pensar nas fortunas que os futebolistas de renome recebem por acrobacias bem menos notáveis que as do Lago dos Cisnes, ainda que muito mais barulhentas?

Mais sério ainda: os dançarinos da Ópera de Paris se aposentam aos 42 anos, em razão dos desgastes físicos que a profissão exige. Foi o rei Luís XIV, o do Palácio de Versalhes, que deu a seus bailarinos um regime de aposentadoria especial. Mas hoje os homens e mulheres que se aposentam estão “quebrados” e arruinados. E atravessam a velhice em silêncio, sozinhos, à espera da morte.

Regime especial. Arranjar outro emprego? Mas os jovens que quiseram ser “ratinhos” não estudaram. Então, eles dançam e dançam. Se, apesar de tudo, são cultos, é porque frequentam pessoas brilhantes, dândis, poetas e ricos que completam sua educação e sua cultura. Mas e quando chega a aposentadoria? Eles não podem fazer nada.

Do mundo real, eles não conhecem as engrenagens. São como “inválidos”. Sua aposentadoria é tão escassa que eles só conseguem sobreviver se dedicando a outro emprego. Essas mulheres e homens que encantaram as noites de Paris, que fizeram sonhar princesas, magnatas e empresários ricos em bilhões, mas rudes como pão de cevada, acabam se tornando velhinhos cheios de lembranças e tristezas. Caminham a passos curtos, com pés cansados de tantas danças, tremendo.

É o inverso de suas existências. Obviamente, há exceções. Mas a maioria dos ex-dançarinos se preocupa com a velhice. É por isso que eles estavam dançando na noite de domingo diante da Opéra Garnier. Luís XIV, certamente, foi um grande rei, mesmo que tenha travado muitas guerras e deixado a França em ruínas, quatro séculos atrás. É realmente urgente estabelecer um “regime especial” para este corpo de baile. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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