Os informantes islâmicos

Muçulmanos são os melhores aliados para pôr um fim ao terrorismo

WILLIAM, SALETAN, SLATE, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2013 | 02h05

Há alguns dias a polícia canadense prendeu dois muçulmanos que tramavam um ataque a um trem de passageiros. Um imã de Toronto teve papel crucial. Ele era um informante. De acordo com um advogado, o imã tinha observado um dos suspeitos procurando "aproximar-se de jovens muçulmanos" com propaganda extremista e alertou as autoridades, que investigaram o acusado e frustraram o complô.

Isso ocorre com muita frequência. Afinal, o melhor lugar para detectarmos sinais de alerta de um possível ataque terrorista islâmico são os centros muçulmanos, pois é nas comunidades que os jihadistas fazem seu recrutamento. E os pais muçulmanos não querem ver seus filhos enredados na violência jihadista, da mesma maneira que você não deseja que seu filho seja atraído por um culto ou uma gangue.

As primeiras pessoas ameaçadas pelos terroristas islâmicos e na melhor posição para apanhá-los antes de atacarem são os muçulmanos. Necessitamos da ajuda deles. E estamos conseguindo.

A New America Foundation, em parceria com a Escola de Políticas Públicas da Universidade Maxwell, em Syracuse, mantém um arquivo de casos em que muçulmanos informavam o governo sobre complôs terroristas. O Muslim Public Affairs Council também possui uma lista de mais de 20 casos. A New America Foundation tem mais de 40 episódios relatados. Examinando os casos, vemos histórias de todo tipo. A mulher que descobriu que o marido vinha comprando equipamento militar. O pai que informou o Departamento de Segurança Interna que seu filho estava se tornando perigosamente extremista. Líderes de mesquitas que reportaram o comportamento ameaçador de um fiel ao FBI.

Os informantes arriscam-se. Mas eles vão à polícia, sempre e sempre. E chegam mesmo a fazer contato com o FBI quando o personagem suspeito é uma pessoa infiltrada em agência de segurança.

Há casos conhecidos. Outros sobre os quais nunca ouvimos falar porque a fonte e o governo mantêm segredo ou porque, no fim, nenhuma prisão foi necessária. O caso canadense nos forneceu uma rara visão de mundo, uma vez que as autoridades envolvidas naquela prisão autorizaram os líderes muçulmanos a conversar com a imprensa sobre o seu papel.

O diretor de assuntos religiosos da Fundação Islâmica de Toronto disse que existe uma "vigilância informada" na comunidade. O advogado do imã com frequência ajuda os muçulmanos locais a buscarem as autoridades. Em Ottawa, um outro imã disse que faria o mesmo. "É dever religioso de um muçulmano informar qualquer coisa que possa ser perigosa...Isso está mencionado no Alcorão", ele afirmou.

O Canadá administrou melhor suas relações com os muçulmanos do que os EUA. Após os atentados do 11 de Setembro, o FBI enviou informantes para as mesquitas disfarçados de convertidos ou fiéis. Ao contrário dos canadenses, as delegacias de polícia americanas costumavam operar diretamente nas comunidades para colher informações. Eles mentiam e irritavam os líderes da comunidade. Imãs não gostam de espiões e impostores em suas mesquitas, do mesmo modo que você não gostaria de espiões e impostores na sua igreja.

Ao que parece, as relações melhoraram. O FBI aperfeiçoou seu material de treinamento usado para criar um estereótipo do muçulmano e incentivou os muçulmanos a se juntarem a eles. O diretor do FBI, Robert Mueller, concedeu prêmios de liderança para organizações que desviam os jovens muçulmanos do caminho da radicalização e informam agências do governo sobre a vida muçulmana e o terrorismo doméstico.

A detecção e a intervenção funcionam melhor quando praticadas por pessoas próximas aos indivíduos comprometidos e não por uma vigilância externa.

Para cada jihadista que prega a guerra, existe um imã que deseja a paz. Para cada Tamerlan Tsarnaev há um Ruslan Tsarni (tio do suspeito). As pessoas boas podem acabar com o terrorismo. Precisamos da ajuda delas. E elas da nossa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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