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Os interesses de Israel

PARIS - No caso da tragédia síria, Washington faz declarações e declarações e o presidente francês de tempos em tempos profere um discurso na posição de "comandante-chefe", formando a sua "frágil Grande Coalizão Mundial de dois membros" (França e EUA). Na Turquia, o premiê Recep Tayyip Erdogan exige a execução e maldiz o ditador sírio, Bashar Assad. Putin sorri perversamente.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2013 | 02h01

Mas um país está silencioso. Israel, que se encontra, no entanto, no meio da tormenta. Israel está à porta da Síria e no centro de uma vasta região, que vai do Egito até o Irã, em risco de incendiar-se descontroladamente.

A sobriedade de Israel merece ser investigada pois revela as insolúveis contradições nas quais estão mergulhadas todas as nações ocidentais com relação à guerra civil síria.

Não é preciso dizer que os dirigentes israelenses desejam que o Ocidente puna Assad pelos seus crimes e o uso de gás contra seu próprio povo. Mas ao mesmo tempo não querem, realmente, que as investidas ocidentais provoquem a derrubada de Assad.

Por que tal raciocínio? Certamente não é por compaixão ao ditador sírio. O fato é que Jerusalém teme que o desaparecimento de Assad abra caminho para grupos radicais islamistas, alguns muito próximos da Al-Qaeda.

É uma estranha configuração, similar a uma "quadratura do círculo": ou seja, entrar em guerra, mas não derrotar o chefe dos inimigos. Em resumo, travar uma guerra, mas evitar vencê-la.

Essa hesitação dos israelenses tem a vantagem de deixar claro, de maneira crua e impiedosa, o estado de espírito dos ocidentais, particularmente das duas nações que pretendem uma ação armada contra Damasco: França e EUA.

SUCESSÃO

Obama teme que a eliminação do líder sírio leve ao poder não os corajosos democratas que há dois anos se rebelaram contra a tirania, mas os islamistas, cada vez mais numerosos, treinados e armados, que se integraram nas fileiras dos insurgentes como moscas no mel.

Os israelenses criticam duramente o presidente Obama. Denunciam sua hesitação, quase a sua falta de coragem. E compreenderam que a influência de Washington no Oriente Médio diminuiu espetacularmente desde o início da Primavera Árabe. E a cautela de Obama, sua incapacidade de assumir posições heroicas, provocaram um forte recuo da influência americana em todo o Oriente Médio, que se tornou a região mais perigosa do mundo.

Mais além do caso sírio (por mais grave que seja aos olhos dos dirigentes de Israel), é sobretudo pensando num outro país e num outro desafio que os israelenses criticam Obama. Trata-se do Irã, que proximamente se tornará um perigo ainda mais terrível do que o apresentado por Damasco. O Irã e sua provável força nuclear.

Se os americanos hesitam tanto em atacar a Síria, vacilarão muito mais no caso de um adversário bem mais forte do que Assad: o Irã, seus aiatolás e suas ogivas nucleares.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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