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Os jihadistas na Síria

Vladimir Putin afastou, com brio e sem hipocrisia, a sombria ameaça que pairava sobre a Síria: o tirano Bashar Assad não poderá mais utilizar os gases tóxicos contra a rebelião. No futuro, Assad matará seus inimigos com bombas e metralhadoras.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2013 | 02h06

Mas quem são os inimigos de Assad? Há dois anos e meio, quando as multidões pegaram em armas para rechaçar o ditador sírio, as coisas eram claras: um líder cruel reinava em Damasco. Contra ele, revoltaram-se estudantes e trabalhadores. O "bem" e o "mal" eram distintos.

Abaixo o tirano! Infelizmente, ao longo dos meses, esse límpido esquema foi se toldando. A guerra mudou, mudaram os atores, os chefes, os pilotos e as cores. Com a chegada incessante de jihadistas procedentes de todos os países muçulmanos e do cerco à cidade de Homs, os protagonistas já não são os mesmos.

Em alguns meses, será preciso inclusive mudar o discurso. Não se falará mais do confronto entre o tirano Assad e os rebeldes democráticos do Exército Sírio Livre (ESL), mas da guerra entre o regime de Bashar Assad e os islâmicos radicais. O Ocidente terá, então, de escolher não mais entre o "bem" (a democracia) e o "mal" (a tirania), mas entre a peste e a cólera, ou seja, entre um tirano detestável e terroristas assassinos.

Há uma semana, o jornal Al Hayat anunciou que os líderes dos grupos armados no norte da Síria pretendem unir suas forças e fundar o Exército de Maomé, com um efetivo de 50 mil homens, reagrupando apenas os "filhos da religião sunita". Outro sinal: no início de agosto, jihadistas pertencentes ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante (a Al-Qaeda no Iraque) e a Frente Al-Nusra (ligada à Al-Qaeda) apoderaram-se de cerca de dez cidades controladas pelo regime sírio.

Nos dias seguintes, os soldados de Assad contra-atacaram e reconquistaram cidades perdidas. No entanto, o que surpreendeu foi que as brigadas do ESL recusaram-se, na ocasião, a apoiar os jihadistas. Esses incidentes estão se multiplicando. É como se agora as armas da guerra contra Assad não estivessem mais nas mãos do ESL, mas nas dos islamistas mais ou menos afiliados à Al-Qaeda. Por outro lado, o ESL tornou-se uma "farsa", afirmam em Damasco.

Evidentemente, Londres, Paris e Washington não ignoram nenhum detalhe dessas mudanças. Seus governos sabem que a "revolução síria" foi sequestrada pelos jihadistas, o que explica, certamente, os titubeios da diplomacia ocidental.

A temível questão que se coloca é: devemos amar os "rebeldes"? Não se tratará da ideia tresloucada de fornecer armas aos rebeldes com o risco de que elas caiam nas mãos da Al-Qaeda? Os americanos não esquecerão jamais que Bin Laden recebeu a ajuda dos EUA durante a guerra da Rússia no Afeganistão.

São verdades duras. Elas circulam, mas ninguém ousa expressá-las em voz alta, só algumas raras pessoas. Como, por exemplo, um repórter do jornal Le Figaro, Renaud Girard, que levanta, em seu último artigo, a questão à qual ele mesmo responde, sem rodeios: "Nosso principal inimigo na Síria é o jihadismo".

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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