Os jogos geopolíticos de Putin

A crise na Ucrânia mostra ao presidente russo os limites de sua influência sobre Kiev

ROSS, DOUTHAT, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2014 | 02h03

Na última vez em que a geopolítica se intrometeu numa Olimpíada, durante os Jogos de Pequim, de 2008, Vladimir Putin foi o vitorioso da crise: seu Exército castigou duramente a vizinha Geórgia, cujo governo fatalmente havia superestimado a disposição do Ocidente em intervir em seu nome. A mensagem enviada por aquela miniguerra foi clara: depois de um longo período entrincheirado, o urso russo ainda tinha apetite pelo poder político e as garras para se satisfazer.

Desta vez, os Jogos Olímpicos foram realizados em solo russo e a violência vem convulsionando uma outra nação da órbita tradicional de Moscou. No entanto, a mensagem enviada pela crise na Ucrânia é bem diferente. Até agora, os eventos de Kiev têm sido uma lição sobre os limites da influência russa e como é implausível o direito de Putin de oferecer um modelo de civilização que rivalize com o Ocidente democrático liberal.

Parece claro que tal rivalidade é o objetivo de Putin. Depois de um século em que a Rússia se definiu como poder revolucionário combatendo os capitalistas reacionários do Ocidente, o ex-agente da KGB busca um retorno do papel ideológico que sua nação desempenhou sob o comando dos czares.

Como observou Michael Dougherty na revista The Week, essa mudança em termos de atitude foi visível durante todo o período posterior ao 11 de Setembro, mas ficou nítida diante das recentes manobras domésticas de Putin - o processo por blasfêmia do grupo Pussy Riot, medidas reprimindo o direito dos gays, a retórica que compara os "valores tradicionais" da Rússia com o relativismo europeu e americano.

Significativamente, esta retórica não é apenas para consumo doméstico, mas dirigida também para o mundo em desenvolvimento. No entanto, há uma enorme diferença entre a grande estratégia de Putin e seus antepassados soviético e czarista. Os czares desejavam criar uma "Aliança Sagrada" para defender o velho regime. A Rússia atual, porém, brutalizada pelo comunismo e, posteriormente, controlada por oligarcas e trapaceiros, não é uma sociedade tradicional no sentido do termo e a única coisa que comunga com muitos dos seus aliados no mundo em desenvolvimento é o desprezo pelas normas democráticas. Na era dos Romanov, a ideia conservadora do trono e o altar ainda tinha legitimidade política. No entanto, não há nenhum direito comparável que Putin possa reivindicar para sua própria autoridade.

Não quer dizer que o enfoque geopolítico de Putin seja totalmente absurdo. Pelo contrário, com frequência ele pratica o grande jogo geopolítico com mais eficiência do que americanos e europeus. Contudo, a fraqueza da Rússia é a corrupção do governo e a falta de atrativo do seu suposto tradicionalismo. É o que observamos no caso da Ucrânia. Apesar dos equívocos cometidos pela UE, Putin luta para ganhar uma batalha de influência num país em que tanto os Romanov como os soviéticos dominaram com facilidade.

Essa luta é particularmente reveladora, uma vez que a recessão expôs a União Europeia como uma instituição totalmente desgovernada, cujas loucuras relegaram muitos dos seus Estados ao caos econômico. No entanto, mesmo esse fato não convenceu a maioria dos ucranianos a acatar com entusiasmo o abraço de Moscou. É preciso muito mais do que um mau governo para tornar a alternativa autoritária oferecida por Putin mais atraente do que o projeto europeu.

Num paralelo interessante, vale analisar o que vem ocorrendo do outro lado do mundo, onde o laboratório que Hugo Chávez criou para a revolução bolivariana vem descambando para o mesmo tipo de violência que vemos na Ucrânia. Do mesmo modo que o tradicionalismo de Putin, a tese neossocialista de Chávez teve por objetivo contestar a ordem mundial liderada pelos EUA.

A lição em ambos os casos não é que a civilização liberal do período moderno tardio mereça predominar sem contestação. Mas, 25 anos após a Guerra Fria, de Kiev a Caracas, ainda não há alternativa plausível. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.