Os jogos que os nazistas jogaram

Olimpíada fez com que nazistas escondessem racismo

David Clay Large, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2011 | 00h00

Poucas Olimpíadas ficaram tão famosas quanto as de Berlim em 1936, cujo 75.º aniversário é lembrado este mês. A publicidade em torno da competição, realizada sob os olhos atentos de Adolf Hitler, aparentemente amansou o regime nazista, pelo menos temporariamente - justificando, desde então, conceder o direito de sediar esses Jogos em lugares como Moscou, Pequim e Sochi, na Rússia, que hospedará a Olimpíada de Inverno de 2014.

Mas em grande parte essa história é mito. Na verdade, a Olimpíada ensinou os nazistas como esconder seu racismo e antissemitismo selvagens e deve servir como advertência para o Comitê Olímpico Internacional (COI) quando analisa os locais para eventos futuros.

Quando o comitê outorgou a Berlim o direito de sediar a Olimpíada em 1931, Hitler ainda não tinha assumido o poder. Mas em 1936 sem dúvida o racismo e o antissemitismo estavam no centro da ideologia nazista; as chamadas Leis de Nuremberg, que foram o marco da política nazista para isolar os judeus e outras minorias da vida germânica, tinham sido aprovadas um ano antes.

O COI foi pressionado por grupos judeus e de esquerda, que ameaçaram boicotar os Jogos caso fossem realizados na Alemanha. O comitê manteve-se firme, alegando que os Jogos poderiam "abrir" o Terceiro Reich, que a atenção internacional obrigaria o governo nazista a atenuar suas medidas repressivas. Embora tenha ficado claro que os Jogos não "abriram" o Terceiro Reich, o governo de Hitler, para acalmar os visitantes, reduziu sua perseguição aos judeus durante aquele verão - em outras palavras, os Jogos cumpriram parte do que o comitê prometera.

Mas a verdade é mais nuançada. Apesar de o regime ter desencorajado o antissemitismo flagrante, esta diretiva ficou circunscrita a Berlim. Fora da capital, as Leis de Nuremberg continuavam em pleno vigor.

Neste aspecto, os Jogos foram até contraproducentes. Essas medidas cosméticas não só abrandaram as críticas, mas ensinaram o regime como era fácil enganar a opinião pública global.

Talvez o mais famoso mito seja o de Jesse Owens, atleta americano negro. Na mitologia popular, o impressionante desempenho dos atletas americanos negros, especialmente o de Owens, enfureceram Hitler, que se recusou a apertar a mão do atleta após sua vitória na corrida dos 100 metros.

Foi uma história amplamente difundida na época para mostrar que o espírito olímpico tinha triunfado sobre o racismo nazista. O problema é que este fato jamais ocorreu. Antes de Owens entrar na pista, o presidente do COI, Henri de Baillet-Latour, pediu a Hitler que não se congratulasse mais com os vitoriosos no estádio, o que ele estava fazendo repetidamente, a menos que cumprimentasse cada vencedor. Temendo que Jesse Owens pudesse vencer a corrida, e determinado a nunca tocar num negro, Hitler parou de convidar os atletas a sua tribuna para um aperto de mão em público.

Mas Owens não entendeu isso. Afirmou que Hitler era uma pessoa "digna" e acenou para ele amigavelmente. Na verdade, ele disse que não foi Hitler, mas o presidente Franklin D. Roosevelt que o ignorou, não lhe enviando nem mesmo um telegrama de congratulações.

Mais importante do que a história de Owens é a opinião, que ainda persiste, de que as vitórias dos afro-americanos em 1936 obrigaram as pessoas em toda a parte a repensar suas ideias sobre a inferioridade negra no atletismo de alto nível. Aparentemente, mesmo os comentaristas alemães teriam reconhecido a superioridade destes atletas.

Na realidade, a publicidade em torno do sucesso dos atletas americanos simplesmente ensinou os nazistas a refinar os estereótipos existentes.

Em vez de afirmar que esses atletas eram fisicamente inferiores, eles procuraram desacreditá-los, tratando-os como anomalias que, diante da sua "herança selvagem", eram capazes de saltar alto e correr rápido.

Mas muitos comentaristas americanos também se expressavam de maneira similar, afirmando que, embora determinadas "vantagens físicas herdadas" podiam fazer dos negros bons velocistas e saltadores, eles nunca poderiam competir e vencer os brancos em disciplinas que exigiam estratégia, trabalho em equipe ou determinação. Assim, segundo especialistas, os negros nunca conseguiriam jogar na posição "quarterback", ou se sair bem em esportes como corrida de longa distância ou basquete.

A verdade por trás da Olimpíada de 1936 derruba totalmente a noção de que os Jogos Olímpicos podem ter um efeito salutar sobre regimes repressivos. Com efeito, até agora há poucas evidências de que a Olimpíada de Pequim, em 2008, contribuiu para alguma coisa a não ser mostrar ao governo chinês como manter seu controle sobre as liberdades, embora aparentemente abra suas portas para o mundo.

Não significa que os Jogos devem ser realizados somente em países politicamente "imaculados". Mas, em vez de comemorar cegamente a alegada abertura de regimes repressivos que hospedam o evento, a comunidade internacional deve usar a ocasião como uma oportunidade para forçar esses países a se aterem aos valores que a Olimpíada representa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PROFESSOR DE HISTÓRIA NA MONTANA STATE UNIVERSITY E AUTOR DO LIVRO "NAZI GAMES" (JOGOS NAZISTAS, EM TRADUÇÃO LIVRE)

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