Os jovens árabes

Os jovens árabes

Em alguns países, os jovens vão às ruas protestar; em outros, eles se mudam

Moisés Naím, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2021 | 05h00

Antes eram os jihadistas e agora são os supremacistas brancos. Durante anos, o terrorismo islâmico foi visto como uma das principais ameaças, sobretudo para a Europa e os Estados Unidos. Não mais. Agora as preocupações são o coronavírus e a violência dos extremistas brancos.

O terrorismo da supremacia branca está muito presente e em ascensão. Segundo Christopher Wray, diretor do FBI, “a principal ameaça que enfrentamos são os grupos que chamamos de ‘extremistas violentos, motivados por fatores raciais ou étnicos’. Mais especificamente, estamos preocupados com aqueles que defendem a superioridade da raça branca”.

O FBI oficialmente subiu a ameaça decorrente desses grupos, colocando-os no mesmo nível de perigo que o Estado Islâmico. Wray também revelou que, embora o FBI tenha investigado 850 casos de terrorismo de supremacia branca no ano passado, agora já são 2.000 casos abertos. Esse terrorismo não é apenas um fenômeno americano. Nos últimos anos, sua presença e ações violentas também aumentaram na Europa e na Oceania.

É claro que a diminuição da presença de jihadistas nas notícias não significa que as condições que originaram essa violência tenham diminuído. Um indicador da frustração dos jovens árabes é que cerca de metade deles já pensou ou pensa em emigrar de seu país. Em alguns países do mundo árabe, o número de jovens que desejam sair é impressionante: chega a 77% no Líbano, 69% na Líbia e 56% na Jordânia.

Os dados vêm de uma interessante pesquisa de opinião conduzida pela ASDA'A-BCW, uma empresa de comunicações. Há doze anos, a empresa vem pesquisando anualmente uma amostra de jovens entre 18 e 24 anos que vivem em 17 países no Oriente Médio e Norte da África. Os resultados dessas pesquisas de opinião muitas vezes colidem com percepções profundamente arraigadas.

Para 40% dos inquiridos, a religião é o principal determinante da sua identidade - mais do que a família (19%) ou a nacionalidade (17%). Mas essa identidade religiosa não se traduz em apoio a governos que também são definidos pela religião. Os jovens pesquisados querem governos menos corruptos e mais eficientes, capazes de criar empregos e melhorar a qualidade da educação: 87% estão preocupados com o desemprego e mais da metade não acredita que o governo seja capaz de resolver este problema.

Entre os entrevistados, 41% acreditam que a corrupção é generalizada em seu país e 36% pensam que há corrupção no governo. Esse repúdio à corrupção é um dos fatores que motivam o apoio dos jovens pesquisados à onda de protestos de rua antigovernamentais, os quais se tornaram frequentes em países como Líbano, Argélia, Sudão e Iraque, entre outros. Como em outras partes do mundo onde as ruas se tornaram um importante canal de protestos políticos, no mundo árabe eles foram alimentados pelo uso das redes sociais. Há cinco anos, 25% dos jovens pesquisados relataram que as mídias sociais eram sua principal fonte de notícias. Agora essa porcentagem disparou para 79%.

O uso quase universal da internet entre os jovens deixa uma das conclusões desta pesquisa muito surpreendente. Quando questionados sobre o principal determinante de sua identidade individual, apenas 5% disseram que seu gênero era o fator mais decisivo. Como a amostra dos entrevistados foi desenhada de forma que houvesse um número igual de mulheres e homens, é marcante o pouco peso que os entrevistados atribuem ao gênero na definição de sua identidade.

Esse resultado é consistente com outro que também surpreende: 64% das jovens pesquisadas acham que em seu país as mulheres têm os mesmos direitos que os homens e 11% acham que as mulheres têm mais direitos do que os homens. Infelizmente, os responsáveis pela pesquisa não nos oferecem nenhuma explicação para esse achado inusitado.

Por fim, outra revelação interessante dessa pesquisa é o magnetismo que os Emirados Árabes Unidos exercem sobre os jovens pesquisados: 34% deles acham que os Emirados Árabes Unidos aumentaram sua influência na região, avaliação que perde apenas para a Arábia Saudita (39%). Os Emirados são, pelo nono ano consecutivo, o país onde os jovens árabes querem viver: 46% os declaram seu destino preferido para emigrar, acima dos 33% que preferem os Estados Unidos. Talvez seja o resultado mais chocante: mostra que esses jovens não querem viver no Ocidente - eles querem viver em um país que funcione.

Essa combinação de expectativas e frustrações dos jovens árabes apresenta desafios gigantescos a seus governos. Se, antes da pandemia e de suas devastadoras consequências econômicas, os 200 milhões de jovens enfrentavam as maiores taxas de desemprego do mundo, governos intoleravelmente corruptos e incapazes de fazer as reformas necessárias, a situação agora é muito pior.

Em alguns países árabes, os jovens vão às ruas para protestar. Em outros, eles entram em aviões, barcos e carros para mudar de país, pois no deles não podem mudar seu governo nefasto. Veremos o que dizem as pesquisas de jovens árabes no ano que vem. / Tradução de Renato Prelorentzou 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.