Evgenia Novozhenina/REUTERS
Evgenia Novozhenina/REUTERS

Os jovens comunistas que ameaçam Putin

Nova geração critica pobreza, escândalos de corrupção e canaliza insatisfação com o regime

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2021 | 05h00

Um candidato do Partido Comunista, Mikhail Lobanov, um obscuro matemático, se transformou da noite para o dia na nova face de uma crescente ameaça ao Kremlin. Lobanov quase superou um importante aliado de Putin no sudoeste de Moscou nas eleições do mês passado. Posteriormente, ele alegou que a eleição foi roubada.

O Partido Comunista da Rússia é conhecido por sua tradicional complacência, sem jamais ameaçar o Kremlin, em troca de financiamento estatal e regalias. Alguns jovens comunistas e aliados da esquerda, porém, não foram informados disso. E estão começando a se portar como oposição.

Isso poderia representar um inesperado desafio para o presidente russo, Vladimir Putin, que empreende uma esmagadora repressão contra críticos, opositores, jornalistas e defensores de direitos humanos. O objetivo é abrir caminho para que ele possa disputar a presidência novamente em 2024 – e possivelmente governar até 2036.

Com a velha geração desaparecendo, uma nova legião de comunistas está em ascensão. Eles não agitam bandeiras vermelhas nem usam o antiquado jargão ideológico e se opõem ao regime de Putin em razão da corrupção e da pobreza. Alguns até foram às ruas em apoio ao líder opositor preso Alexei Navalni. “Uma das placas tectônicas verdadeiramente poderosas da política russa está começando a se mover”, afirmou o analista Mark Galeotti, professor da Escola de Estudos Eslavos da University College de Londres.

Enquanto o novo risco emerge, Putin reforça a repressão, prendendo comunistas e mandando a polícia bater na porta de Lobanov, para mostrar que ele está em seu radar. Galeotti diz que os comunistas conquistaram muito mais votos nas eleições parlamentares do que mostraram os resultados oficiais. Autoridades do Kremlin insistem que as eleições foram justas.

Galeotti afirmou que o Partido Comunista era útil ao Kremlin, atraindo para si os votos antirregime sem representar nenhuma ameaça real. O Kremlin não quer que isso mude. Um dos novos deputados comunistas eleitos é Oleg Mikhailov, de 34 anos, um crítico ferrenho do regime. Mas as autoridades russas foram bem-sucedidas em excluir alguns comunistas populares, como Pavel Grudinin, um milionário produtor de morangos que concorreu contra Putin em 2018. Ele foi impedido de disputar o cargo de deputado.

Lobanov, de 37 anos, que se autodenomina um socialista democrático, concorreu pelo Partido Comunista, mas não é membro da legenda. Ele emergiu como improvável celebridade política após uma incansável campanha eleitoral que o colocou 11 mil votos à frente do candidato pró-Kremlin, o âncora da TV estatal Yevgeny Popov, na contagem dos votos de papel. O resultado oficial, porém, que levou em conta a votação digital, deu a Popov o assento por 20 mil votos.

“Sabemos que a agenda da esquerda está em alta. Essa eleição provou isso. E nós mostramos, apesar de não termos basicamente nenhum recurso no início, que podemos unir e inspirar as pessoas a criar uma enorme campanha”, afirmou Lobanov.

O Partido Comunista é liderado pelo cambaleante Gennadi Zyuganov, de 77 anos, desde 1993. A última vez que ele ameaçou seriamente vencer uma disputa eleitoral foi 25 anos atrás, na eleição presidencial de 1996. Ele foi reeleito como líder do partido em abril.

Fora de Moscou, em regiões onde não houve votação online, o Partido Comunista conquistou apoio, em particular no leste da Rússia e na Sibéria. A legenda aumentou sua presença no Parlamento em 15 assentos, de 42 para 57, demonstrando a insatisfação das pessoas com a inflação, os baixos salários e o aumento da idade mínima de aposentadoria.

Lobanov não tem ilusão de que o Kremlin dará espaço a ativistas como ele, mas afirma que não vai desistir. “Não acredito que esse poder possa ser derrubado por eleições, nem pela força, por meio de manifestações de rua”, disse. “Acredito nas bases, que as pessoas deveriam se unir e trabalhar juntas em diferentes níveis, e não necessariamente participar de eleições.” / NYT, TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.