Os latino-americanos e a falsa sensação de antiamericanismo

"Por que nos odeiam?" A pergunta, para os americanos, é dirigida ao mundo islâmico. Entre as respostas está a de que "eles se ressentem da política externa dos EUA". Quando se muda o enfoque para a América Latina, a política externa também é a razão principal do antiamericanismo. Faz sentido. É difícil encontrar outra região do mundo com agravos mais antigos pela ação de Washington. Os latino-americanos, porém, não são antiamericanos. Pesquisas sugerem o oposto: a maioria tem opiniões positivas sobre os EUA. Mais surpreendente é o fato de que muitos países onde a intervenção foi mais frequente são aqueles com opiniões mais favoráveis. Na verdade, a pergunta do início deveria ser invertida: "Por que os latino-americanos não odeiam os EUA?" O interesse econômico é a chave.

O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h05

Quanto maiores os laços com os EUA, mais favoráveis as opiniões. Por isso, os centro-americanos, apesar de terem sido as grandes vítimas da história, são os mais pró-americanos. Ninguém imaginaria isso a julgar pela retórica de alguns líderes da região. Segundo analistas, diversos eventos intensificaram o ressentimento com os EUA. Os líderes da nova esquerda latino-americana seguiram seus passos. Muitos pensam que o sentimento antiamericano está enraizado. No entanto, basta uma olhada em pesquisas para ver que ele inexiste.

Segundo dados do Latinobarómetro em 18 países, o latino-americano manteve uma opinião positiva dos EUA entre 1995 e 2010. Em todos os 18 países, as opiniões favoráveis superam as negativas. Um ponto de comparação é o grau de antiamericanismo em outros 45 países. Pesquisa do instituto Pew, entre 2002 e 2010, mostra que o ressentimento é maior no restante do mundo do que no país mais antiamericano da América Latina: a Argentina.

Dito isto, a conclusão deixa duas incógnitas. Primeiro, por que os latino-americanos gostam dos EUA? Segundo, por que os países mais vitimados são os mais favoráveis? Primeiro, as intervenções dos EUA foram bem-vindas para grande parte das sociedades nas quais ocorreram. Além disso, a memória é curta. A América Latina é uma região jovem e a maioria das pessoas com menos de 40 anos não se lembra das ações que enfureceram seus avós. Para a maioria, a realidade imediata é a do intercâmbio econômico. A interdependência produz indivíduos que se beneficiam materialmente. Na América Central, por exemplo, muitos da classe baixa e média recebem remessas de familiares e amigos que trabalham nos EUA.

Os EUA compram 40% das exportações da América Latina, continuam sendo o principal parceiro comercial da maioria dos países, representam 40% dos investimentos externos e mais de 90% dos US$ 60 bilhões em remessas que se dirigem à região. Na América Latina, o México deveria ser o que mais odeia os EUA: é a única nação que enfrentou os americanos em uma guerra, a única que perdeu 50% do seu território para os EUA e a principal vítima do narcotráfico. Mas 60% dos mexicanos são pró-americanos.

Os países da região com os quais os EUA não têm acordo de livre comércio (Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Paraguai, Uruguai e Venezuela) são aqueles onde há menos pró-americanos. Um Nafta no qual os EUA façam verdadeiras concessões quanto ao protecionismo agrícola poderia mudar esse cenário. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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