Os limites da política externa dos EUA

O presidente americano, Barack Obama, toma iniciativas e tem de lidar com uma onda de reações adversas

É JORNALISTAE CORRESPONDENTE DA , ASSOCIATED PRESS EM WASHINGTON, JIM, KUHNHENN, THE WASHINGTON POST, É JORNALISTAE CORRESPONDENTE DA , ASSOCIATED PRESS EM WASHINGTON, JIM, KUHNHENN, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2013 | 02h13

Nas duas últimas semanas, o presidente Barack Obama discutiu com o presidente chinês Xi Jinping sobre cibersegurança, realizou conferências com líderes mundiais sobre Síria e comércio, declarou seu desejo de reduzir as armas nucleares americanas e russas e deu passos tímidos rumo a uma reconciliação no Afeganistão.

Em cada caso, o presidente está se alinhando a um processo com um objetivo remoto e fadado a um provável insucesso. Quando conclamou os aliados estrangeiros e rivais dos EUA, ele recebeu uma boa dose de contestações.

Em Berlim, na quarta-feira, Obama advertiu que a União Europeia poderia "perder uma geração" se não ajustasse suas políticas econômicas para enfrentar o alto desemprego dos jovens.

A chanceler alemã, Angela Merkel, para quem os países endividados da zona do euro devem enfrentar primeiro seus problemas fiscais, disse que seu governo estava comprometido em ajudar seus parceiros europeus nas nações atingidas pela crise.

"Se estivéssemos conduzindo políticas que prejudicassem outros países, estaríamos prejudicando a nós mesmos", disse Merkel. Ela reagiu com suas próprias recomendações de cautela sobre a coleta sigilosa de registros telefônicos e a vigilância do tráfego de internet pelo governo Obama.

"As pessoas se preocupam que possa haver algum tipo de coleta de informação geral e indiscriminada", disse a chanceler. "É preciso haver proporcionalidade entre segurança e liberdade", acrescentou Merkel, que deixou claro que suas conversas privadas sobre o tema com Obama não encerravam o assunto.

Foi uma espécie de pugilato polido entre aliados vitais - uma conversa que não prejudicará uma relação sólida. No entanto, ilustrou como numa ordem mundial do século 21, as potências ocidentais já não se sentem tão gratas aos EUA como um dia se sentiram. A capacidade de Obama de firmar acordos e de construir consensos é, com frequência, limitada e regularmente testada.

A peça de resistência da visita de Obama a Berlim foi um discurso no histórico Portão de Brandenburgo, que já foi um símbolo da Guerra Fria, onde ele pediu negociações com os russos para reduzir em um terço as armas nucleares americanas e o número de ogivas táticas na Europa. "Paz com justiça significa buscar a segurança de um mundo sem armas nucleares, por mais distante que esse sonho possa estar", afirmou Obama.

As palavras mal haviam saído de sua boca quando um membro republicano da Comissão das Forças Armadas da Câmara, o deputado de Ohio, Michael Turner, o acusou de apaziguamento, enquanto autoridades russas depreciavam a proposta de Obama.

Confronto. Um consultor de política externa do presidente russo, Vladimir Putin, disse que qualquer nova redução de armas teria de envolver outros países, além de Rússia e EUA. "Hoje, a situação está longe do que estava nos anos 60 e 70, quando somente EUA e União Soviética discutiam redução de armas", disse o consultor, Yuri Ushakov.

Dois dias antes, Obama e Putin haviam examinado a situação da Síria. Putin se recusara a retirar o apoio da Rússia ao governo do presidente Bashar Assad, obrigando outros líderes na reunião do G-8, na Irlanda do Norte, a pedir um acordo de paz negociado, enquanto discordavam sobre a presença de Assad na negociação.

Com a disposição atual de Obama de fornecer armas aos rebeldes sírios, Putin encerrou a cúpula do G-8 advertindo, contundentemente, que as forças de oposição incluem criminosos que ele comparou aos matadores de um soldado britânico no mês passado em Londres. "Os europeus estarão dispostos a entregar armas a essa gente?", questionou Putin.

Mesmo um acontecimento potencialmente animador no Afeganistão, esta semana, adquiriu um gosto amargo quando o presidente afegão, Hamid Karzai, declarou que não faria negociações de paz com o Taleban a menos que os EUA se retirassem do diálogo. Na terça-feira, Obama havia elogiado Karzai por concordar em participar das conversações e "dar esse passo corajoso".

Um dia depois, Obama teve de reconhecer o revés. "Tínhamos previsto que, no começo, haveria algumas áreas de atrito, no mínimo, para tirar essa coisa do chão", disse ele, na quarta-feira.

Líderes europeus, reunidos no G-8, assinalaram um avanço significativo - uma decisão de iniciar conversações para um possível acordo comercial entre a União Europeia e os EUA. Mas, no que toca as realizações, foi só um início de processo. E teve um preço. Obama queria que as conversações transcorressem sem precondições, mas a França ganhou uma concessão quando chefes da UE concordaram com a exclusão dos setores europeus de cinema, rádio e televisão das negociações. Foi o primeiro sinal das dificuldades que viriam. A primeira sessão de negociações está marcada para Washington, no próximo mês.

Ataques. Nenhuma relação ilustra melhor os desafios de política externa para Obama do que a existente entre EUA e China. Ao se reunir com Xi, na Califórnia, há duas semanas, Obama confrontou o presidente chinês sobre reclamações americanas de ciberataques chineses contra empresas americanas, advertindo que a questão poderia prejudicar as relações fundamentais entre os dois países. "Tivemos uma conversa muito franca sobre cibersegurança", disse Obama ao entrevistador da PBS, Charlie Rose, esta semana.

Após a reunião, autoridades chinesas disseram que Xi refutou a existência de qualquer tipo de ciberespionagem e declinou de qualquer responsabilidade por ataques contra os EUA. "A cibersegurança não deveria ser a causa fundamental de suspeitas mútuas e atritos entre nossos dois países. Ela deve ser um novo ponto brilhante em nossa cooperação", disse Yang Jiechi, principal consultor de política externa de Xi.

A discussão franca representou, contudo, um começo para colocar a cibersegurança no topo da agenda das conversações entre EUA e China. Se Obama ganhou terreno em suas duas últimas semanas de diplomacia internacional, foi para assentar alicerces frágeis sobre os quais construir. Um início importante. No entanto, a julgar pelas reações, ainda não se trata de conquistas inovadoras em termos de política externa. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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