Os limites das medidas públicas

Muitas vezes, as políticas adotadas são ofuscadas pela influência de fatores culturais, étnicos e psicológicos

DAVID BROOKS, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2010 | 00h00

Há aproximadamente um século, muitos suecos imigraram para os Estados Unidos. Eles prosperaram aqui. Apenas 6,7% dos americanos de origem sueca vivem na pobreza. Também há aproximadamente um século, muitos suecos decidiram ficar na Suécia. Eles também prosperaram lá.

Quando dois economistas calcularam a taxa de pobreza da Suécia em relação ao padrão americano, eles descobriram que apenas 6,7% dos suecos vivem na pobreza em seu próprio país. Em outras palavras, trata-se de dois grupos com passados parecidos vivendo em sistemas políticos totalmente diferentes, e os resultados de ambos os casos foram idênticos no combate à pobreza.

Um padrão parecido pode ser verificado na saúde pública. Em 1950, os suecos tinham uma expectativa de vida 2,6 anos superior à dos americanos. Nos 50 anos seguintes, Suécia e EUA seguiram políticas distintas. A Suécia ergueu um vasto Estado de bem-estar social, enquanto os EUA não o fizeram. O resultado? A diferença entre as expectativas de vida nos dois países permaneceu essencialmente a mesma. Atualmente os suecos vivem em média 2,7 anos a mais do que os americanos.

Outra vez, são imensas as diferenças nas medidas públicas, mas os resultados são muito parecidos. Isso não equivale a dizer que a escolha entre diferentes conjuntos de medidas públicas é irrelevante. Mas é importante que as encaremos com realismo. A influência da política e das medidas públicas costuma ser ofuscada pela influência da cultura, da etnia, da psicologia e de uma dúzia de outros fatores.

O mesmo fenômeno pode ser observado entre a população americana. Na semana passada, o Projeto Americano de Desenvolvimento Humano divulgou os resultados de sua pesquisa "Separados por um século", que aborda vários aspectos da vida nos EUA. Como seria de se esperar, a questão étnica está relacionada a grandes diferenças na qualidade de vida das pessoas. Em todo o país, 50% dos adultos de origem asiática possuem diploma universitário, porcentual comparável a 31% entre os brancos, 17% entre os americanos negros e 13% entre os hispânicos.

Qualidade de vida. Os americanos asiáticos têm expectativa de vida de 87 anos, enquanto a dos brancos é de 79 anos, e a dos negros, 73 anos. Estes americanos de origem asiática parecem prosperar mesmo em regiões menos favorecidas do país. Seus níveis de renda e escolaridade são também muito mais altos do que aqueles observados nos demais grupos populacionais.

As características regionais também influenciam muito a qualidade de vida. Há certas regiões nas quais a confiança social é alta e onde a população de alta escolaridade se reúne, produzindo ciclos positivos, projetos culturais de qualidade e bons programas de capital social. Quando combinadas, a influência regional e a influência étnica produzem impressionantes diferenças entre os estilos de vida. O americano asiático médio de New Jersey vive 26 anos a mais do que o índio americano médio da Dakota do Sul, e a probabilidade de ele possuir um diploma do ensino superior é 11 vezes maior do que a deste último.

Quando tentamos compreender diferenças tão grandes na qualidade de vida de diferentes grupos sociais, ultrapassamos os limites estreitos dos incentivos econômicos e entramos no mundo sombrio do capital social. O que importa são as vivências históricas, as atitudes culturais, o modo de criar os filhos, os padrões de formação familiar, as expectativas em relação ao futuro, a ética no trabalho e a qualidade dos elos sociais.

Os pesquisadores tentaram excluir do cálculo a influência desses fatores abstratos e descobriram que a tarefa é quase impossível. A única coisa que podemos afirmar ao certo é que diferentes fatores psicológicos, culturais e sociais combinam-se de múltiplas maneiras para produzir diferentes pontos de vista. Como resultado dos distintos pontos de vista, o comportamento médio é diferente entre os grupos étnicos e geográficos, o que produz diferentes níveis de qualidade de vida.

Para os responsáveis pela elaboração de medidas públicas, é muito difícil empregar o dinheiro para alterar diretamente esses pontos de vista. Em seu livro What Money Can"t Buy (Aquilo que o dinheiro não compra), Susan E. Mayer, da Universidade de Chicago, calculou o que aconteceria se fosse possível dobrar a renda dos americanos mais pobres. Os resultados seriam de uma insignificância desapontadora. Dobrar a renda dos pais reduziria pouquíssimo a taxa de abandono escolar entre as crianças. O efeito na redução dos casos de gravidez na adolescência seria mínimo.

Assim, quando nos envolvemos em debates políticos, é importante termos consciência do papel que as medidas públicas desempenham no contexto mais amplo das influências culturais e sociais. Políticas públicas ruins podem dizimar o tecido social, mas boas medidas públicas podem, no máximo, reforçar modestamente esse tecido.

Assim sendo, a primeira regra da elaboração de medidas deveria ser não promulgar medidas que destruam elos sociais. Se tomarmos tribos exilando-as de suas terras natais e transportando-as para lugares distantes e áridos, o resultado negativo será sentido por gerações. A segunda regra deve ser o estabelecimento de um nível básico de segurança. Se o governo for capaz de estabelecer um nível básico de segurança econômica e física, talvez as pessoas desenvolvam uma cultura empreendedora - se tivermos sorte. A terceira regra deve ser o uso das medidas para fortalecer os relacionamentos.

Finalmente, é melhor que todos nós passemos a tratar a política com mais calma. A maioria das propostas sobre as quais debatemos tão furiosamente tem como resultado mudanças marginais no nosso modo de vida, especialmente quando comparada às diferenças étnicas, regionais e sociais que fazemos tanta questão de ignorar. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É AUTOR DE LIVROS SOBRE POLÍTICA AMERICANA E JÁ FOI CORRESPONDENTE NO ORIENTE MÉDIO E EM MOSCOU

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