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Os limites das políticas de Erdogan, Putin e Orbán

Ascensão de líderes não liberais na Europa depende da manutenção de políticas não intervencionistas na economia

Daniel Gros, Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 05h00

A ascensão da “democracia não liberal” na Europa é uma das mais nefastas tendências de nosso tempo. Tais regimes são tipicamente centrados em um líder que concentra poder oprimindo – e em alguns casos eliminando – controles e salvaguardas institucionais. Vladimir Putin, da Rússia, Recep Erdogan, da Turquia, e Viktor Orbán, da Hungria, representam três das manifestações mais visíveis desse fenômeno. Mas o que é digno de nota – e perigoso – é a forma como tais regimes conseguem apoio popular.

O controle sobre os meios tradicionais de comunicação é certamente uma das razões, mas não explica a persistente popularidade dos líderes “iliberais”, confirmada pelas pesquisas de opinião.

A razão fundamental do sucesso político desses líderes é o fato de tais regimes, apesar de se situarem como antiocidentais, terem seguido o chamado Consenso de Washington, que prescreve políticas prudentes em macroeconomia e abertura dos mercados.

A Rússia sob Putin é o exemplo perfeito desse enfoque, com o governo em geral apresentando superávits orçamentários e acumulando vastas reservas. A Hungria adotou uma prudente política fiscal sob Orbán e Erdogan fez o mesmo na Turquia. A dívida pública nesses três países é reduzida ou está em declínio. Em dois dos casos, os predecessores dos regimes perderam a credibilidade ao conduzir o país a crises financeiras.

É um contraste acentuado com o enfoque do, digamos, poderoso falecido líder da Venezuela, Hugo Chávez, que manteve o apoio popular durante 14 anos com os rendimentos de um longo “boom” nos preços do petróleo com generosos programas sociais. Agora, com os preços do óleo valendo praticamente a metade desde 2014 – e sem uma proteção fiscal ativa para manter as importações – o sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, enfrenta uma catastrófica crise.

As políticas macroeconômicas prudentes dão sustentação ao crescimento, mas só funcionam se a economia permanecer relativamente livre. Até agora, nem Putin nem Erdogan associaram sua retórica nacionalista a políticas protecionistas. Ao contrário, Putin aderiu à Organização Mundial do Comércio, e Erdogan jamais colocou em dúvida a união aduaneira com a União Europeia, mesmo que as relações bilaterais sigam de mal a pior.

O desafio no longo prazo para os poderosos é manter economicamente liberais os seus regimes políticos iliberais. Com o tempo, torna-se mais forte a tentação de repassar a amigos e parentes o controle de uma parcela cada vez maior da economia e a corrupção tende a aumentar, pois a principal finalidade torna-se o desenvolvimento de conexões políticas e adulação ao regime por meio de favores. 

A Turquia pode ter alcançado esse momento crucial semelhante. O Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), de Erdogan, herdou uma economia que se recuperava de uma profunda crise financeira e tinha um significativo potencial de crescimento, em razão da contínua urbanização e ganhos no nível educacional da população.

Nos últimos tempos, o governo do AKP limitou sua interferência ao setor doméstico da economia, tais como aquisições governamentais e gastos com infraestrutura. Mas, após o fracassado golpe militar no ano passado, o regime se fortaleceu a ponto de confiscar empresas que pertenciam a pessoas acusadas de simpatizar com o chamado movimento gulenista, que Erdogan acusa de ter arquitetado a tentativa de golpe.

Centenas de empresas já foram confiscadas. Caso isso continue, os empreendedores vão parar de investir e o crescimento vai fraquejar. O problema é que, uma vez que o regime iliberal siga nessa rota, não poderá restabelecer facilmente o compromisso confiável de respeito aos direitos de propriedade, porque as instituições que os garantem nas democracias liberais, como um Judiciário independente, não existem mais.

Os poderosos de hoje mantiveram o apoio popular ao dar continuidade à relativa liberdade econômica da qual depende a prosperidade no longo prazo. Mas assim que tais regimes tornam-se cada vez mais autoritários, sua capacidade de manter felizes os eleitores fica ainda mais duvidosa. / TRADUÇÃO DE CLÁUDIA BOZZO

É DIRETOR DO CENTRO DE ESTUDOS DE POLÍTICAS EUROPEIAS

 

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