Os limites de uma aproximação com o Irã

Por muitos anos, presidentes iranianos mantiveram encontros com jornalistas na Assembleia-Geral da ONU. Ultimamente, o evento era deprimente. Mahmoud Ahmadinejad, com seu tradicional terno amarfanhado, entrava despreocupadamente no local, vociferava sobre os riscos da hegemonia americana, negava o Holocausto e insultava os convidados. Hassan Rohani, ao contrário, chegou pontualmente, elegantemente vestido em mantos clericais, e falou com propriedade sobre cada tópico discutido. Sua única pregação pessoal foi contra a "iranofobia". Ele implorou que a mídia visite o Irã e apresente ao mundo a imagem real do país. "A questão nuclear pode ser resolvida no curto prazo", disse Rohani, mostrando otimismo. "O mundo quer ser tranquilizado de que nosso programa é pacífico e queremos ajudá-lo a ter essa confiança."

ANÁLISE: Fareed Zakaria / W. POST, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2013 | 02h07

As sanções cobraram um alto preço do Irã. Rohani falou sobre o dano causado aos iranianos comuns - como acesso a comida e remédios. Ele sugeriu, porém, que tudo era passado e esperava uma melhora nas relações. Saí disposto a acreditar que ele é um pragmático e quer acabar com o isolamento do país, mas ninguém sabe se ele tem autoridade para agir em nome do governo.

Na terça-feira, os iranianos recusaram uma oferta da Casa Branca para um encontro com Barack Obama. Rohani explicou que ele não tinha nenhum problema com o aperto de mão, mas que essa é uma "questão sensível". Isso dá o que pensar. Se ele não tem a liberdade de apertar a mão de Obama, terá a liberdade de negociar um acordo nuclear? Teerã tem outro lado, formado pela Guarda Revolucionária, a força especial cuja influência cresceu na última década. Essas pessoas são "falcões" em política externa e lucram com as sanções porque suas empresas se tornaram o único meio de comércio e contrabando. A melhor notícia, contudo, talvez seja que o líder supremo, Ali Khamenei, dirigiu-se publicamente à Guarda Revolucionária e disse que seu papel estava na defesa nacional, não na política.

As dúvidas sobre o poder de Rohani só poderão ser esclarecidas com o tempo. Os iranianos, porém, também têm dúvidas - sobre o poder de Obama. Afinal, Rohani está disposto a cooperar em troca do relaxamento das sanções, mas será que Obama pode bancar isso? O Irã é objeto de dezenas de sanções. Algumas com base em resoluções do Conselho de Segurança da ONU, outras são decisões da União Europeia, do Congresso ou ordens executivas do presidente dos EUA. Obama só pode levantar as últimas. As mais onerosas são as do Congresso - mais difíceis de resolver.

Em tese, é possível idealizar um processo racional que requeira ações concretas do Irã. No entanto, isso exige que o Congresso se comporte de maneira racional - o que é uma fantasia. O cenário mais provável é que qualquer acordo seja denunciado por republicanos como Marco Rubio, que reuniu dez senadores e insiste que, a menos que Teerã desmantele seu programa nuclear e se torne uma democracia liberal, nenhuma das sanções será retirada. A verdade é que ainda é incerto se o Irã pode dizer sim a um acordo - e igualmente incerto se os EUA podem fazer a mesma coisa. / TRADUÇÃO CELSO PACIORNIK

 *É COLUNISTA

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