Janine Costa/Reuters
Janine Costa/Reuters

Os limites do antifujimorismo

Deve-se lembrar que quem se apresentou para essa eleição foi Kuckynski, não o antifujimorismo

Carlos Malamud / Infolatam

08 Junho 2016 | 05h00

Diante de uma eleição que vem provocando enfarte no Peru, é evidente que o antagonismo fujimorismo/antifujimorismo está vigente. E, ao que parece, a última alternativa é que predomina. Trata-se também de um conglomerado heterogêneo de pessoas, grupos e interesses que têm como referência imediata os fatos ocorridos durante o mandato de Alberto Fujimori, há mais de 20 anos.

No caso dos defensores do fujimorismo, as lembranças se concentram na estabilidade econômica e na erradicação da hiperinflação, nefasto legado do governo Alan García, como também na derrota do Sendero Luminoso. Ocorre que foram as classes populares as mais afetadas pelos dois fenômenos e daí a grande receptividade da mensagem de Keiko Fujimori entre elas.

Para os antifujimoristas, a lembrança daquele período está ligada à corrupção, à repressão indiscriminada, à violação dos direitos humanos e à onipresença de Vladimiro Montesinos. Os grupos que mais sofreram com a restrição das liberdades pelo autoritarismo de Fujimori se opõem ao retorno de qualquer projeto ligado a um passado considerado lamentável.

Nesse contexto foi realizado o segundo turno da eleição, entre Keiko e Pedro Pablo Kuczynski (PPK). Até uma semana antes da eleição, as pesquisas favoreciam claramente a candidata, apesar de a diferença ter diminuído, chegando a um empate técnico. As razões da reviravolta devem ser buscadas no melhor desempenho de PPK no segundo debate, nos diversos erros da campanha de Keiko e na intensa mobilização dos grupos contrários a Fujimori.

No momento em que escrevo esse artigo, haviam sido computados 94,637% dos votos, com uma diferença de 0,298% em favor de PPK. A diferença é pequena, embora ainda seja necessário computar votos de algumas seções eleitorais, incluindo no exterior, onde se impôs de forma clara o partido Peruanos por el Kambio, ou de zonas onde o fujimorismo não é tão claro. Esse final tão apertado no segundo turno não é muito diferente de outras eleições na América Latina, como na Argentina ou no Brasil.

Quando a contagem atingiu os 90% dos votos, e diante da redução progressiva da diferença entre os candidatos, acreditou-se que era possível uma mudança de tendência que permitiria a vitória de Keiko. Mas até ontem não havia ocorrido a reversão. Para muitos analistas, diante do escasso número de urnas a serem computadas, estamos no ponto de não retorno. Mas é necessário cautela até o resultado definitivo.

Caso se confirme a vitória de PPK é preciso rejeitar comentários tanto da imprensa peruana quanto de alguns observadores estrangeiros indicando que foi o antifujimorismo venceu, não Kuczynski. Trata-se de retórica. Em primeiro lugar, quem se apresentou para essa eleição foi PPK, não o antifujimorismo. Em segundo lugar, o que fizeram os opositores de Keiko foi evitar sua vitória. E em terceiro, o antifujimorismo não deu certo e, mais importante, não dará certo como coalizão eleitoral apoiando o vencedor no exercício da presidência.

E isso nos leva ao futuro. Que apoios Kuzcynski buscará para levar adiante um governo? Verónika Mendoza, principal dirigente de esquerda, afirmou que votaria em PPK, mas não apoiaria sua gestão. Por outro lado, o fujimorismo tem clara maioria parlamentar e é nela, com toda probabilidade, que o vitorioso nessa eleição concentrará sua atenção.

Neste sentido, precisamos ver se PPK usará o indulto de Alberto Fujimori como moeda de troca em uma negociação com os congressistas da Força Popular para garantir a governabilidade do Peru. Os desafios do novo governo, quaisquer que sejam, são consideráveis, especialmente o retorno ao crescimento econômico. O modo de administrar a indústria de mineração será chave para interpretar o rumo da economia peruana. A luta contra a delinquência é outro tema sensível, diante da importância que a sociedade dá à falta de segurança. 

Desta vez, o antifujimorismo parece ter conseguido frear, novamente, o retorno ao poder do seu maior inimigo. Mas temo que esta seja a última vez. Principalmente porque dentro de cinco anos haverá um número muito maior de eleitores peruanos sem nenhuma lembrança dos anos de governo de Fujimori. Se o Peru pretende melhorar o sistema político e a governabilidade do país, é premente reconstruir seu sistema partidário, um dos pilares da democracia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CATEDRÁTICO DE HISTÓRIA DA AMÉRICA DA UNIVERSIDADE NACIONAL DE EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA, DA ESPANHA. PUBLICADO SOB LICENÇA DA INFOLATAM

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